A Boy. A Girl. A Dream: Simplicidade emociona nas telonas

A simplicidade de alguns filmes é exatamente o que faz deles tão especiais. E quando digo simplicidade é contar um boa história, sem luxo na produção, mas que emociona profundamente o espectador.

Este é o caso de “A Boy. A Girl. A Dream” ( “Um Menino. Uma Menina. Um Sonho”), que tive a chance de assistir em janeiro, no Sundance Film Festival e que, felizmente, vai ser distribuído em breve nos cinemas pelo mundo afora.

O filme mostra o encontro de Cass (Omari Hardwick), um promotor de boate em Los Angeles, e Frida (Meagan Good), que está visitando a cidade. Seus destinos se cruzam no dia da última eleição presidencial nos EUA, quando contrariando todas as expectativas, Donald Trump vence Hillary Clinton. A Cidade dos Anjos, onde muitos sonhos são realizados e outros tantos destruídos pra sempre, serve como cenário perfeito para a jornada emocionante e vibrante que Cass e Frida compartilham naquela noite, que mudou a história dos país. E de certa forma, vai também mudar a história do casal, pois enquanto Frida desafia Cass a reviver seus sonhos que não foram realizados, Cass tenta descobrir os dela.

O roteiro é realista tanto que em algum momento da história, todos nós nos identificamos com os personagens, com os diálogos honestos e com a própria natureza do romance.

Eu tive o prazer de bater um papo delicioso com os atores, produtores e o diretor de “A Boy. A Girl. A Dream” ( “Um Menino. Uma Menina. Um Sonho”) em Park City.

Confiram e saibam como é possível fazer filmes excelentes e relevantes, sem orçamentos milionários, celebridades e efeitos especiais. E se você sonha em trabalhar com cinema, essas nossas entrevistas exclusivas ganham um sabor mais especial por que vão mesmo servir de inspiração para que você faça seu filme e seja também uma estrela do mundo indie:

Entrevista com os atores: Omari Hardwick, Meagan Good, Jay Ellis

Olá, tudo bem?
Tudo e com você? Desculpe, estamos tentando conseguir nossa vitamina C.

Você precisa, certo? Ok, eu consigo me identificar tanto com esse filme porque oito anos atrás, eu me mudei do Brasil – eu sou do Brasil – para LA para correr atrás de um sonho.
Eu sei como você venceu. Eu vejo sua tatuagem.

Ah, a tatuagem?
É uma cruz, certo? Eu vejo. Eu vi de primeira. 

Então, eu me identifico, porque é tudo sobre sonhos e foi filmado em LA, e nós não vemos muitos filmes…
Filmados em LA esses dias!

Certo? Isso é estranho!
É verdade.

Quando vocês leram o script, como vocês se identificaram com os personagens, com a história? Como foi esse processo para vocês?
Para mim, foi empolgante interpretar a Frida porque ela está indo em uma jornada de autodescoberta, começando a aceitar quem ela é e o que ela deve fazer da vida. Os dois estão fazendo isso. Então, eu acho que a jornada sozinha já é muito interessante.

É muito inteligente.
Sim.

E foi um jeito lindo de lembrar de uma noite tão estranha para este país, certo?
Sim.

Eu me lembro que, quando li sobre este filme pela primeira vez, pensei: “Que ideia excelente!”. Eles vão mudar a minha perspectiva daquela noite.
Isso é legal. Somente uma parte da visão daquele todo.

Só uma parte. Aquela foi uma noite estranha, certo?
Sim, muito estranha.

Vocês ficaram surpresos com o resultado?
Sim!
Eu fiquei tão surpreso, meu Deus.
Eu estava em negação.
Eu acho que até ele estava surpreso, você viu a cara que ele fez quando ganhou?

Ele ficou chocado.
Sim, ele ficou chocado, ele também não esperava. De qualquer forma, ele teria ganhado porque ele é um psicopata, uma estrela de reality, narcisismo na sua melhor forma… Eu não acho que já vimos um ser humano mais narcisista em nosso tempo de vida. Então, ele ganhava de qualquer forma, só por ser visto. Mas ele não esperava ganhar. Todos nós ficamos chocados, incluindo ele.

Eu sei! Então, vocês escolheram uma maneira, um lugar lindo para mostrar uma história de amor.
Sim.
Nós ficamos felizes que Qasim colocou esse aspecto na história, porque esta não era a ideia inicial.

Não?
A eleição não estava no plano inicial. Era somente uma história de amor.

Isso é incrível.
E aí, conforme acontecia, ele pensou: “E se…?”
Muito inteligente.

Eu pensei que fosse pensado… Eu estou tão obcecada pela eleição que eu pensei que fosse assim.
Todos nós estamos.

Então, ele estava pensando sobre a eleição…
E adicionou ao filme. É isso, bem diferente.

Era pra ser ao contrário.
Sim. Ele só queria uma história de amor que fosse bonita, diferente e leve, mas a eleição a torna diferente porque o que está em jogo é muito importante: conhecer um ao outro sem invadir o espaço um do outro. Então, antes da briga acontecer, eles dão espaço um ao outro e depois… Quando eles ficam perto um do outro, os riscos são tão altos para que eles se conheçam neste primeiro encontro que ele acaba se tornando o melhor primeiro encontro de todos os tempos. Quantas pessoas podem dizer que realmente se conheceram em um primeiro encontro? Isso é irônico. No meu primeiro encontro com a minha esposa, nós tivemos uma conversa sobre política. Mas não uma conversa em que o Donald Trump ganha a eleição. Então, nos força… A Meagan e eu temos que entender isso. Nós realmente temos que descobrir como nos apaixonar no primeiro encontro. Eles se apaixonam no primeiro encontro.

E no meio disso…
Caos!
Loucura.
Usando o personagem do Dijon, o Naqeeb, e os seus ideais. Ele tinha um ideal, um sistema de crenças, uma perspectiva. Ele era metade árabe. Rock tem um sistema de crenças, um ideal, uma perspectiva… Ele está fugindo dos ideais do Cass e da sua perspectiva. E, ironicamente, o Cass e a Free têm os mesmos ideais e perspectiva. Mas eles estão falando um com o outro de uma forma muito arrogante, egocêntrica… Sabe, na vida, você tem que ter uma essência à qual você se dedica. Ou é espírito ou é ego. E eles alternam entre espírito e ego.

É tão interessante.
Eu acho que o Cass é, definitivamente, um tipo de personagem que eu não interpretei antes, em termos de ter que navegar entre o espírito e o ego.

Os personagens têm camadas.
Você consegue fazer isso em um certo tempo, mas não em um take de 90 minutos, sabe o que quero dizer? Eles se apaixonam. Eles realmente se apaixonam. E, quando eu assisto, eu acredito que eles se apaixonam.

 Nós conseguimos sentir.
Sim, conseguimos.

Nós conseguimos nos identificar com eles. Eu me identifico com a história sobre LA, o sonho, mas nós conseguimos sentir como…
Você sente o amor.

Sim. É assim que vemos o quão boas são as performances, sabe?
Obrigado.

É muito raro ver uma história de amor assim.
Sim, pode ser brega e…

Eu assisto a muitos filmes, acredite, eu faço isso para viver. E também muitos programas de televisão, o tempo todo. Às vezes, um show chama a minha atenção porque eu consigo sentir.
Todos nós gostamos dessa história de amor. Nós gostamos de “O Diário de uma Paixão” (“The Notebook”), a nossa geração gosta. Nós não tínhamos filmes como este. Em primeiro lugar, o Ryan Gosling e a Rachel são atores incríveis, mas o personagem do Ryan diz: “É isso que nós fazemos, nós lutamos”. Isso é real. Todo mundo se apaixonou por “O Diário de uma Paixão”, então estamos esperando para ver um filme…

Este é o segredo do seu filme: ele nos faz sentir alguma coisa. Faz sentido?
Sim!

Eu senti alguma coisa.
Faz perfeito sentido.

Muito obrigada!
Obrigado.

Entrevista roteiristas, diretor e produtores: Qasim Basir (diretor, co-roteirista), Samantha Tanner (co-roteirista), Datari Turner (produtor)

Eu sou do Brasil e…
Yey! É o meu lugar dos sonhos. Eu quero tanto ir!

Você deveria ir! Você nunca foi?
Não.

É bem divertido! Minha opinião é tendenciosa, obviamente!
Não! Você não é a primeira pessoa que me diz isso.

É um lugar divertido. Eu vivo nos Estados Unidos há algum tempo, mesmo que o sotaque…
Eu adoro!

E eu estava dizendo aos atores que eu me identifico tanto com este filme porque foi filmado em LA e, oito anos atrás, quando eu mudei para cá, eu mudei para LA porque eu tinha um sonho para conquistar.
Uau.

Então, não é só uma história de amor, não é só sobre a eleição, é sobre LA. Vocês filmaram o filme em LA e nós quase não vemos mais filmes em LA.
Sim. É caro!

Eu ia perguntar isso!
Mas veja isso: inicialmente, eu escrevi o filme para New York e o Datari me disse: “Ei, cara, o que acha de filmar isso em LA?”.

Porque um dos meus filmes favoritos foi filmado em LA, mas você não vê o lado glamoroso. Você vê do lado dos artistas que passam fome, sabe, das ruas? LA é uma cidade tão, tão bonita, cheia de lugares incríveis que merecem a atenção.

Eu sei. Mas é caro!
Eu que o diga!

Até mais que Nova York.
Sim. É mais caro filmar em LA que lá, especialmente em West Hollywood. De um ponto de vista técnico…

Eu vivo lá. Quero dizer, quando estou em LA, eu vivo em West Hollywood e eu sei o quanto é caro.
É muito difícil de conseguir acesso.

Foi o maior desafio?
Sim, um dos maiores.

A permissão de filmagem de LA não vale para West LA. Nós tivemos que conseguir uma permissão de filmagem diferente só para West Hollywood.

São cidades diferentes.
Sim.

Uma das principais locações… As duas principais locações são 100% residenciais, rodeadas por residências. E nós temos uma equipe grande que estava ajudando.

Nós precisamos de assinaturas… Definitivamente, foi difícil de filmar.

E tivemos pessoas que, mesmo depois da filmagem, saíam pegando assinaturas de todo mundo. Em um dos dias que estávamos filmando, uma mulher saiu de sua loja e disse que queria três mil dólares, sabe?

Não acredito!
Tipo, o quê? E, então, fez com que seu amigo estacionasse o carro na loja… Estacionasse um SUV preto, gigante, na loja.

Eu amo essa história!
O Omari literalmente entrou na loja dela para falar com ela. E ele foi tão gentil com ela, mas ela não concordava.

Você teve que pagar?
Não, filmamos em volta! Você não vai nos impedir, sabe?

Enfim… Obrigada por terem sido persistentes porque é lindo ver LA e o sonho. É quase como um personagem, sabe?
Sim, com certeza!

Por falar nisso, eles acabaram de me dizer que a eleição veio depois.
Sim.

Quando eu li sobre este filme pela primeira vez, e já faz um tempo que eu recebi um press release, eu pensei: “Que ideia legal!”. Aquele dia foi um dia tão estranho nos Estados Unidos, certo?
Sim!

Quero dizer, eu não voto aqui porque ainda não sou cidadã, mas foi um dia estranho. Então, eu li sobre o filme e pensei que este era um jeito muito legal de lembrar aquele dia estranho.
Sim.

Mas a eleição veio depois?
Estava tudo na cabeça deste gênio, então eu vou deixá-lo falar. Vou deixá-lo começar.

Eu queria tentar fazer uma história de amor leve. Eu passei por muitas coisas na minha vida e, particularmente, a experiência de tentar fazer meu segundo filme foi muito difícil. O que passamos como diretores de filmes é muito difícil. Então, depois desse, eu disse: “Quer saber? Eu não vou esperar mais 3, 4, 5 anos para fazer um filme. Deixe-me achar um tipo de história humana… Duas pessoas, garoto conhece garota, simples, uma noite juntos”. E foi aí que começou. Eu escrevi grande parte deste filme em um voo de NY para LA porque eu conheço essa história, eu conheço esse cara. Ele representa, basicamente, o que eu acabei de viver. Então, eu liguei para o Datari e disse: “Eu tenho essa ideia, eu acho que podemos fazer isso, gravar aquilo…”. Nós falamos sobre algumas atrizes que pensamos. O Omari sempre esteve lá, a Meagan sempre esteve lá e, então, segui para o desenvolvimento com a Sam. E aí a eleição aconteceu e nos atingiu tão fortemente… Atingiu-me tão fortemente, sabe? Todos têm diferentes formas de expressar diferentes energias e eu acho que essa energia de divisão e medo… Eu não sei, eu entro muito no Twitter, estive em marchas e em reuniões da comunidade – é tudo incrível e eu ainda faço. Mas eu acho que a minha principal contribuição para o movimento é falar a respeito através deste filme e através de uma ideia que diz que o amor vai vencer diante do ódio, do medo, da divisão e de todas essas coisas que eu sinto que ele representa.

Eu concordo totalmente. Eu fiquei tão feliz de ver um filme assim.
E é isso, não é… Porque poderia ter sido um filme de terror. Mas nós queríamos que fosse otimista, porque, no final, mesmo depois de todas as coisas que eu passei, eu ainda acredito verdadeiramente neste país e na ideia de que você pode ter um lugar. Como eu viajei o mundo, eu vi o que tem lá fora e existem coisas incríveis ao redor do mundo… As pessoas dizem que a América é a número 1. Eu acho que você não pode realmente dizer… É como comparar maçãs e laranjas. Não é o mesmo tipo de coisa, porque depende do que estamos falando. Existem muitas coisas em que não somos número 1, incluindo educação, saúde e todas essas coisas. Mas essa ideia de que você pode crescer e ser literalmente qualquer coisa que queira ser, isso não existe em qualquer lugar do mundo. Isso não existe e eu aprendi isso viajando o mundo e assistindo as pessoas sentindo como se, porque elas tinham nascido naquele lugar, era ali que elas tinham que ficar. E não é nenhum mundo ideal que os permite fazer isso, então eu queria que o filme refletisse isso.

Eu concordo. Quando eu mudei para cá, eu tinha 37 anos.
Sério?

Sim, quando eu mudei a minha vida. Então, esse filme nos ensina um pouco de tudo… Eu estava dizendo aos atores que eu assisto muitos filmes. Esta é a minha vida, é o que eu faço para viver. E é raro sentir. E este filme, a história de amor deles, as performances e o roteiro, nós sentimos, sabe o que quero dizer?
Isso é ótimo.

Eu realmente acredito que a forma como filmamos também é uma parte desta equação, porque você falou sobre os personagens, o roteiro e a produção, mas porque filmamos de uma só vez, o filme dá à audiência espaço para ser paciente e presente com a jornada emocional que essas pessoas estão passando. E, esperançosamente, dá tempo para você refletir com eles. Essa era a intenção.

Sim, nós somos pegos pela história de um jeito diferente. Faz sentido?
Sim. Isso é bom, esse era o plano. Tudo isso foi intencional.

Dá à audiência tempo para se apaixonar pelos personagens e deu à audiência… Não sei, estou só pensando…

Eu acho que o que ele estava tentando dizer é que nós tivemos todas estas conversas para construir isso. Para juntar esse tipo de coisa, a quantidade de planejamento e coreografia é gigantesca. Então, quando ele está falando, eu posso quase completar as sentenças dele. Nós não conseguimos olhar para longe do filme.

É uma família, vocês são família agora!

Você não pode nem olhar para longe… Você fica desconfortável porque tem momentos em que eles estão no carro só olhando um para o outro, mas quantas vezes isso acontece em um primeiro encontro? Você realmente não sabe o que dizer para a pessoa e você fica olhando, escapando o olhar, mas aí você finalmente conecta e sabe o que dizer. Eu acho que foi incrível termos este espaço.

O que eu estava tentando dizer antes é que foi o primeiro filme que eu fiz e um dos poucos que eu já vi em que pensei que as performances dos personagens iam melhorando, melhorando e melhorando. A última cena é a mais poderosa e me fez chorar. Eu acho que fazer o filme em um único take nos deu a habilidade de mostrá-los durante os 90 minutos que filmamos. Isso foi algo muito único.

Ajudou muito, você está certo. Eu amei.
Obrigada!

Eu amei de tantas formas.
Muito obrigado.

E eu vou me lembrar daquele dia estranho de uma forma diferente agora.
Ótimo!

Data de lançamento: em breve (1h29min)
Direção: Qasim Basir
Elenco: Omari Hardwick, Meagan Good, Jay Ellis mais
Gêneros: Drama, Romance
Nacionalidade: EUA

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