Vida real: Celebrando 17 anos na terra estrangeira

Dia 3 de setembro. Há 17 anos, eu me mudava de mala e cuia para os Estados Unidos.

Eu sei que o assunto morar no exterior está na moda. Nas redes sociais, vi muita gente privilegiada (porque é um privilégio poder escolher morar fora do seu país, o que é bem diferente de sair do seu país de origem por necessidade, bom deixar isso muito claro) falando das vantagens e desvantagens, porque ficou, porque decidiu voltar para seu país depois de anos. Acho válido.

 

 

Mas, para mim, a jornada na terra estrangeira é muito particular e eu só posso falar mesmo da minha experiência.

Eu venho de uma realidade muito privilegiada no Brasil, financeira e familiar, sempre tive muitos amigos e excelentes oportunidades no meu país.

 

 

 

A motivação do meu desejo de sair, que talvez seja a mesma de outras pessoas, foi sim “o glamour” da vida na terra estrangeira. Eu sempre soube disso, a minha pergunta pra mim mesma nunca foi porque eu saí, mas sim, porque eu fiquei… Sinceramente, levei alguns anos para descobrir e hoje eu sei porque. São muitas as razões, mas recentemente, quando reli “Cidades de Papel”, meu livro predileto do John Green, eu me deparei com a passagem que resume um pouco dos verdadeiros motivos que me fizeram permanecer na terra estrangeira:

Eu me sentia bem no Brasil por ser uma “ideia” que todo mundo gostava, como a personagem do livro, mas eu tinha dificuldade de me conectar comigo mesma, com quem eu era de verdade, além da imagem de filha, irmã, amiga, parceira, que as pessoas tinham de mim.

 

 

Para a minha vaidade era ótimo ser tão amada e “popular”, tanto que levei anos aqui nos Estados Unidos mesmo, cultivando essa “ideia”. Mas a vida aqui é mais solitária, somos completamente invisíveis como latinos e depois de tentativas frustradas de ter a imagem aqui da pessoa que eu era no Brasil, eu entendi que nos EUA, eu jamais seria tão amada ou tão popular, e foi aí que comecei a me conectar com as outras Claudias que moravam dentro de mim.

Foi aí que realmente me entendi como uma pessoa que curte festa mas é comprometida com a solitude. Foi aí que vi que gosto de uma cerimônia e, por isso, não acho o estadunidense tão “frio” como muitos estrangeiros aqui dizem.

 

 

Foi aí que percebi que só conheci os EUA de verdade, quando fui ao Tennessee, Kansas e Oklahoma e quando passei a ouvir com atenção a trajetória dos meus amigos latinos que cresceram aqui.

Foi aí que me conformei que vou viver em um eterno limbo, nunca vou pertencer aqui e, de certa forma, nem mais ao Brasil.

Eu tenho mais orgulho de ser brasileira agora do que quando morava no Brasil, mas hoje a minha sensação de pertencimento está mais ligada ao aprendizado pelo mundo afora do que a um lugar em si.

 

 

Não vou ser hipocrita, lógico que a “ideia” que as pessoas fazem de mim sempre vai me importar, tanto que estou escrevendo esse texto em uma rede social acompanhada de fotos que exaltam só os momentos alegres da minha trajetória aqui e, nem de longe, refletem os desafios da minha rotina. O que mudou foram as ideias que tenho de mim mesma, minhas longas conversas com as Claudias que se comprometeram a seguir em constante evolução.

As cidades de papel foram criadas pelos cartógrafos para que eles identificassem os mapas falsos. Na verdade, as cidades não existem, mas são determinantes para preservar a verdade.

 

 

Muitas das Claudias que eu conheci nesses últimos 17 anos, não existem pra ninguém, além de mim mesma, mas como as “Cidades de Papel” elas são fundamentais para que a Claudia que todo mundo conhece, possa evoluir e, mesmo no meio de suas hipocrisias, encontrar suas verdades. Por isso, sigo em paz na terra estrangeira.

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