Eu estava com tantas saudades de John Green que, recentemente, ouvi o áudio book de “Cidades de Papel”, meu livro predileto dele e “Quem é Você, Alasca?”, vencedor do Pulitzer (o “Oscar” dos livros) que fala sobre culpa de uma das formas mais brilhantes que já vi em obras artísticas (livros, filmes, séries).
John é um dos meus escritores prediletos e imaginem a minha ansiedade para ler seu novo livro, “Hollywood, Ending” o primeiro romance adulto do autor, lançado em setembro desse ano. Garanti a minha cópia autografada e devorei a obra em duas noites. Genial define!


Melhor que a obra em si, só mesmo rever John Green pessoalmente, depois de quase 1 década, a última vez tinha sido no evento do seu livro “Tartarugas até lá embaixo”, em novembro de 2017.



Dessa vez, fiquei frente a frente com John no histórico Saban Theater, em Beverly Hills, onde ele fez jus ao título do seu livro e, como ele mesmo disse, “estou terminando a turnê do livro que chama Hollywood, Ending, em Los Angeles, nada mais apropriado que encerrar a turnê de um livro que fala sobre a indústria do entretenimento, aqui em LA”.
E complementou, “estou muito feliz porque vários amigos vieram prestigiar o evento e a minha esposa e os meus filhos estão aqui também. Depois de tanto tempo longe de casa, nada melhor do que ter a família perto no encerramento da turnê desse livro que foi cansativa, mas muito especial, porque é sempre muito bom estar aqui com vocês, leitores, que recebem tão bem o meu trabalho. Muito obrigado!”.
Nem preciso dizer que o teatro lotado veio abaixo quando John subiu ao palco. No evento, ganhei mais um exemplar do livro. Como John sabia que muita gente ainda não tinha lido, não rolaram spoilers, ele leu apenas o primeiro capítulo pra deixar a galera curiosa e, para deixar quem leu, com vontade de ler o livro novamente, o que foi o meu caso.


“Hollywood, Ending” é o primeiro livro do John narrado sob a perspectiva de dois personagens, Kai Laramie e Juniper Castillo. Os dois jovens atores estrelam uma cinebiografia sobre Andy Warhol, intitulada “Andy Warhol Never Gets Old”. Enquanto lidam com a fama recém-adquirida graças ao sucesso do filme, eles acabam se apaixonando um pelo outro.



O livro é sensacional. John usou toda a sua experiência nos sets em Hollywood e promovendo os filmes e séries baseados em seus livros e colocou a indústria como o pano de fundo de estórias muito mais profundas do que Hollywood, mas que dizem tudo sobre a indústria do entretenimento.
No papo com Júlia Whelan, uma famosa narradora de áudio books, que foi a voz de Juniper em “Hollywood, Ending”, John contou um pouco sobre o processo de escrita da obra.
“Eu comecei escrevendo apenas sobre o ponto de vista do Kai, mas não demorei muito pra perceber que a trajetória da Juniper deveria ser narrada pelo ponto de vista dela, daí eu mudei um pouco a estrutura do livro, o que foi muito satisfatório e esse é o primeiro livro que escrevo narrado em 2 pontos de vista diferentes, ambos super importantes.”

“Eu admiro meus colegas escritores que conseguem escrever rápido e lançar 1 livro por ano, não é o meu caso. Eu sou lento. Levei 6 anos para escrever ‘Hollywood, Ending’. Inclusive, durante a pandemia, o que atrasou ainda mais, pois foi um período difícil para mim para produzir. Ao mesmo tempo, as caminhadas em Indiana do livro, foram inspiradas pelas minhas caminhadas na floresta, nesse período.”
“A Sarah, minha esposa, é a primeira pessoa que lê tudo que escrevo e ela não economiza nas críticas. Aliás, as sugestões dela são muito acertadas, sempre! Foi dela a ideia de colocar o Andy Warhol na estória. A forma como o Warhol encarava a fama e o seu trabalho tem tudo a ver com a trajetória de Kai e Juniper. Inclusive seus traumas. Além disso, Sarah e eu admiramos muito o trabalho dele.”
O evento teve a participação de duas jovens atrizes da plateia, escolhidas previamente, que encenaram uma cena do livro entre Kai e Juniper com o aval de John Green.

O autor dedicou esse livro a sua assessora de imprensa Elyse Marshall. ‘Hollywood, Ending” destaca o papel dos assessores de imprensa honestos e desonestos e o poder que eles têm de criar um ídolo, dando todo o suporte que o artista precisa para lidar com a fama, ou acabar com a saúde mental dos seus clientes ao escancararem sua privacidade em prol da fama. Aliás, o papel do assessor de imprensa na indústria do entretenimento nos EUA é bem diferente do assessor de imprensa no Brasil. Quem ler “Hollywood, Ending” vai entender melhor essa diferença.
A importância da assessora de imprensa de John na carreira dele é muito grande, como John mesmo disse, “todas as vezes que dou uma entrevista a Elyse me liga depois e fala, olha foi bom, mas tenho algumas observações. E eu sigo aprendendo com ela a falar com a imprensa e em eventos. Melhorei, mas sigo todas as dicas que ela me dá porque são essenciais quando se é uma pessoa pública. Eu lutei contra isso durante um tempo, a “fama”, mas ela aconteceu na minha vida e hoje eu sei lidar com a ajuda de terapia, da minha família que me mantém focado no que importa e da Elyse, que me mostra a direção certa nesse universo”.
Elyse também participou do evento recriando uma coletiva de imprensa onde pessoas da plateia, também previamente escolhidas, liam as perguntas enviadas antecipadamente por outro participantes do evento, como se fossem jornalistas de grandes publicações como Variety, The Hollywood Reporter, LA Times, entre outros.


Entre as perguntas que se destacaram, uma foi sobre o que John achou da adaptação da série baseada no seu livro “Quem é Você, Alasca?”:
John: “Eu amei, sinceramente. Eu lembro que assisti com a Sarah e a gente chorou. Isso foi graças à dedicação da Stephanie (Savage) e do Josh (Schwartz), meus amigos que produziram e série. Eles estão aqui hoje. O cuidado que eles tiveram com esse roteiro foi gigante. Claro que um seriado é diferente de um livro, são mídias diferentes, mas eles levaram anos para produzir Alasca porque eles queriam honrar a estória, meu trabalho e os fãs. O que eles conseguiram fazer brilhantemente.”
*Stephanie Savage e Josh Schwartz são também os produtores das séries “The O.C.” e “Gossip Girl”, entre outras.*
John também respondeu a pergunta sobre a possibilidade de atuar em um filme baseado em seus livros:
John: “Em ‘The Fault in our Stars’, eu gravei uma cena. Eu falava apenas 1 frase e repeti mil vezes. No dia da estreia do filme, os produtores e o diretor vieram me dar a boa notícia que a bilheteria tinha superado as expectativas, o filme era um sucesso mundial. Mas também me deram o que, segundo eles, era uma má notícia, minha cena tinha sido cortada. * Risos * a minha carreira de ator terminou antes de começar e, com certeza, foi ótimo pro filme cortar a minha cena. Eu sou melhor como escritor mesmo.” * Risos *
Uma outra pergunta importante foi o papel do John como ativista protegendo os livros banidos das escolas pela extrema-direita:
John: “Eu levo mais crédito do que eu mereço nessa campanha contra o banir os livros, o mérito é todo dos professores e dos bibliotecários. Eles lutam diariamente para que nossas crianças e jovens tenham acesso aos livros que autoridades extremistas querem banir das nossas escolas e bibliotecas. Eles estão na linha de frente dessa luta necessária e constante. Eu apenas os apoio como escritor e pai de jovens.”
No encerramento do evento, que durou pouco mais de 1 hora, John me levou às lágrimas, ao discursar sobre a importância da arte, no mundo difícil que estamos vivendo hoje.
John: “Em tempos sombrios, a arte nos inspira, nos une e nos entretém. Por isso a minha dica pra vocês é produzam arte, seja um desenho, um vídeo nas redes sociais, ou um livro, produzam. Se 1 pessoa curtir o seu projeto, você já está mudando a vida de alguém. Mas, o importante mesmo é criar conexões com outros artistas que estejam expressando seus sentimentos e ideias. A arte nos salva, especialmente em momentos desafiadores como a nossa sociedade está vivendo agora. Por isso que os autoritários querem banir os livros, filmes, documentários, porque essas pessoas sabem como o poder que a arte tem de transformar o mundo. Faça parte dessa mudança e compartilhe a sua arte, da forma que você quiser. Escreva, atue, cante estórias , desenhe, participe das atividades da sua comunidade. Seja como for, vamos permanecer conectados através da arte.”
Com lágrimas nos olhos, eu fiquei mais um tempo no salão, que estava lotado de fãs tirando fotos no painel de “Hollywood, Ending”, comprando livros e se conectando com outros fãs do autor.
Uma festa comandada pelo gênio John Green. “Hollywood, Ending” é espetacular e, inspirada por John, não deu spoilers nessa matéria. Mas, como trabalho na indústria do entretenimento em Hollywood há anos, posso afirmar que o autor arrasou nas trajetórias de Kai e Juniper em LA.
Agora me resta escutar o áudio book, o que farei em breve!
O livro foi publicado em português com o título “Um Final de Cinema” pela editora Intrínseca. Aqui faço uma propaganda gratuita porque a obra é imperdível:
