AFI Fest tem sessão com o filme Rose premiado no Festival de Berlim

Meu primeiro dia no AFI Fest começou muito bem na sessão do filme “Rose’, estrelado pela maravilhosa Sandra Hüller, que levou o Urso de Prata no Festival de Berlim pela sua excepcional performance no filme.

Tanto a Sandra como o filme estão entre os favoritos para receber indicações ao Oscar nas categorias melhor atriz e melhor filme internacional (Áustria).

 

 

Escrito por Alexander Brom e Markus Schleinzer, que também dirigiu o filme, “Rose” se passa no início do século 17, quando uma mulher (Sandra Hüller) decide desafiar as convenções de sua época ao assumir uma identidade masculina. Disfarçada de homem, ela busca conquistar seu espaço em uma sociedade, que impõe limites rígidos às mulheres e determina quem pode ser considerado um cidadão respeitável. Disposta a seguir as regras e cumprir seus deveres, ela se esforça para construir uma nova vida, enquanto mantém sua verdadeira identidade em segredo. Como “Master”, apresenta documentos válidos para reivindicar uma propriedade isolada, eventualmente conseguindo um casamento arranjado com Suzanna (Caro Braun), filha de um fazendeiro local. Entre as exigências da sociedade, os riscos de ser descoberta e o desejo de pertencer, sua jornada revela as contradições de um mundo marcado por normas e aparências. Para sobreviver, ela precisará sustentar a própria mentira. Fonte: AdoroCinema

 

 

“Rose” é incrível e Sandra deu um show. A narrativa, baseada em fatos, aborda temas como política de gênero, estruturas sociais patriarcais, engano e o alto preço da liberdade social e da sobrevivência para mulheres. Impressionante como uma história que aconteceu no século 17 é mais atual do que nunca, o que torna o filme ainda mais sensacional.

Agora, tão bom quanto assistir ao filme no AFI Fest foi ficar frente a frente com o super simpático e divertido diretor e co-roteirista Markus Schleinzer que participou de um bate-papo, pra lá de interessante, depois da sessão. Compartilho aqui os destaques da entrevista.

 

 

De onde veio a ideia do filme

 

Uma amiga minha me ligou no dia do meu aniversário e na conversa ela me contou sobre a história dessa mulher, Catharina Margaretha Linck, que se apresentou como homem durante a maior parte de sua vida adulta, que tinha casado com uma mulher e, com base na atividade sexual que mantinham, foi condenada e executada por ordem do rei Frederico Guilherme I, em 1721, no dia do meu aniversário há 250 anos. Eu achei essa história fascinante, fui pesquisar e descobri que várias mulheres viveram casos semelhantes. Sem dúvidas, pensei, isso é um filme. Foi um processo longo tirar a ideia do papel, mas aqui estamos finalmente!

 

A decisão de fazer o filme em preto e branco

 

Na verdade, foi uma das primeira decisões que eu e meu diretor de fotografia, que trabalha comigo há anos, tomamos. A cor, no caso do nosso filme, seria uma distração. A gente rodou o filme na primavera, os jardins lindos e floridos nem combinavam com o tema do filme que é bem pesado. A gente queria focar nos atores e na narrativa, sem distrações. E eu acho que foi uma decisão acertada porque sendo em preto e branco ressalta ainda mais as expressões do atores, mesmo nas cenas de plano aberto e, claro, nos close-ups. Não é tão fácil de encontrar investidores para um filme em preto e branco, mas fomos bem-sucedidos nesse aspecto também.

 

 

Sandra Hüller e o elenco

 

A gente escreveu o roteiro para a Sandra. Eu a conheço e acompanho seu trabalho há anos. Creio que não teríamos filme se ela não aceitasse o papel. Ainda bem que ela gostou da ideia e contribuiu muito ao longo de todo o processo. Eu acho que ela é uma das melhores atrizes no mundo atualmente.

Eu fui produtor de elenco durante 17 anos, então o processo de encontrar os atores para esses personagens é muito familiar e prazeroso pra mim. A personagem Suzanna foi difícil de encontrar, vimos mais de 700 atrizes para o papel. A atriz tinha que equilibrar uma certa inocência, mas muita força, independência. Quando a Caro entrou na sala, a gente soube na hora que era ela. Impressionante. Depois saímos pra jantar com ela e com a Sandra, e a química entre elas era evidente.

 

 

Sandra e o urso

 

A cena do urso foi um filme à parte. Não foi IA não, a Sandra já tinha dito que queria fazer a cena. A gente tinha tudo pronto pra usar chroma key, se precisasse, mas a Sandra não queria de jeito nenhum.

Então, para atrair o urso, a gente usou iogurte de morango, fica a dica pros cineastas presentes, porque funciona.

A gente colocou iogurte em pontos do caminho que queríamos que o urso percorresse até perto da Sandra. E rodamos. Deu certo, mas estávamos todos tensos, claro. Depois eu descobri que a cerca de mental elétrica entre a Sandra e o urso nem estava funcionando. Ainda bem que o urso estava mais concentrado no iogurte do que nela. Foi uma aventura!

 

 

Os carneiros

 

Agora eu confesso que a cena mais difícil foi a dos carneiros correndo porque eu não sabia antes, mas carneiros não correm. * risos * então, de última hora, a gente precisou de muito mais carneiros do que planejamos. Por incrível que pareça, foi uma das cenas mais complicadas do filme. Fato que não vou usar mais carneiros em meus roteiros. * risos *

 

Os segredos que o filme não revela

 

A gente escolheu não mostrar tudo, não contar tudo. Na vida real, todos nós temos nossos segredos e essas mulheres também tinham os seus segredos. Eu falei isso para a Sandra e para a Caro. Ai a Caro criou a história da Suzanna sobre a identidade do pai do bebê dela. Um dia eu perguntei para ela quem era e ela me disse que não era da minha conta. Adorei! E eu tenho a minha aposta, mas também vou guardar esse segredo.

 

 

A escolha de não mostrar os abusos e a violência

 

Olha foi uma escolha fácil, porque todo mundo pode usar a imaginação para entender a violência e os abusos, não precisam ser explícitos. Usamos o recurso básico do cinema, poucas palavras e atuações excepcionais com uma fotografia que também contribui para contar a narrativa. Não foi preciso mostrar os horrores que essas mulheres sofreram.

O ensaio da execução da Rose já foi suficiente. E, de fato, as pessoas ensaiavam suas execuções naquela época, porque as execuções eram verdadeiros espetáculos, todo mundo das cidades participava. Então pra gente, o ensaio já funcionou para dar uma ideia do que aconteceu com ela.

 

 

A mensagem

 

Muitas mulheres viveram como homens tentando usufruir de um pouco de liberdade. A gente não sabe se elas eram trans ou gays, talvez sim, talvez não. De qualquer forma, elas estavam tentando ter uma vida mais digna. Um pouco triste que, séculos depois, as mulheres tenham que continuar batalhando pelos seus direitos. Mas esse filme é uma homenagem a elas e a luta por igualdade e respeito!

 

 

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