Elsinore: Como Ian Charleson enfrentou o HIV no momento mais marcante de sua vida artística

“Elsinore” é um dos filmes mais badalados nessa temporada de premiações. Tive o privilégio de assistir a obra no AFI Fest e entendi porque é um dos favoritos a receber indicações ao Oscar em várias categorias, incluindo melhor filme e ator para Andrew Scott, que realmente rouba a cena como Ian Charleson.

 

 

O drama biográfico foi dirigido por Simon Stone e escrito por Stephen Beresford e conta a trajetória do ator escocês Ian Charleson, enquanto se prepara para interpretar Hamlet no prestigiado National Theatre de Londres e enfrenta um dos maiores desafios de sua carreira e de sua vida, pois estava gravemente doente em decorrência da AIDS.

“Elsinore” mostra os desafios que Ian enfrenta nos bastidores do teatro e suas internações no hospital, e revela a dedicação, a vulnerabilidade e a coragem de um artista diante de uma performance que se tornaria inesquecível.

 

 

O filme é excelente e Andrew Scott está excepcional, assim como Olívia Colman, que interpreta sua médica. O roteiro original ressalta muito bem as semelhanças entre a trajetória de Hamlet e o que estava acontecendo na vida de Ian. A direção caprichada contribuiu ainda mais para mostrar o talento e a dedicação do ator ao seu personagem no palco e sua luta pela vida em casa e no hospital.

 

 

Eu chorei incontrolavelmente. Não só pelo filme em si, mas de saudades do Marcos Maya, um amigo muito querido, também ator, uma das pessoas mais divertidas que conheci até hoje e que, assim como Ian, partiu em decorrência de complicações da AIDS, em dezembro de 2013.

Eu conheci Marcos Maya através de um grande amigo. Eles faziam parte da mesma companhia de teatro no Rio, nos anos 90. Fizemos muitas farras juntos, rimos muito, bebemos muito, curtimos muito. Eu e Marquinho nunca fomos melhores amigos, não nos encontrávamos ou falávamos diariamente. Mas quando nos encontrávamos era sempre alto astral e especial.

 

 

Eu ainda morava no Brasil quando ele começou a enfrentar problemas de saúde, inicialmente sem um diagnóstico preciso. Até que ele encontrou um médica que confirmou que Marcos era portador do vírus HIV, no caso dele o vírus estava escondido de uma forma que dificultou um diagnóstico imediato, um caso raro na época.

Com isso, Marcos começou a tratar a doença e melhorou, voltou a trabalhar, a sair e, em 2009, nos encontramos no casamento de uma amiga em comum. Isso foi pouco antes de eu me mudar para os Estados Unidos.

Passamos literalmente a noite toda conversando. Contei a ele sobre meus planos de mudança para o exterior e ele me contou absolutamente todos os detalhes sobre a sua jornada desde a descoberta da doença até a sua recuperação. Me disse como o encontro com essa médica salvou a sua vida, compartilhou suas dores, os perrengues e como a sua determinação e vontade de viver foram determinantes para que estivéssemos ali conversando, naquele momento. Lembro de brindarmos com champanhe a sua vitória.

 

 

Muitos amigos estavam nesse casamento, mas passamos a noite inteira, só nós dois, trocando experiências. Ele ficou muito feliz em saber que eu também realizaria meu sonho de viver em LA, me incentivou e celebrou comigo a minha conquista.

Eu parti para os Estados Unidos poucos meses depois. Marcos seguiu brilhando no Rio. Infelizmente, aquela foi a última vez que nos encontramos. Em 2013, ele voltou a ter problemas de saúde e, infelizmente, partiu em dezembro daquele ano.

Quando Marcos faleceu, eu comentei com o amigo que nos apresentou sobre o papo que tive com ele no casamento, em 2009. Foi quando eu soube que Marcos Maya nunca tinha dividido com ninguém, nem os amigos mais próximos, toda a jornada de saúde dele.

 

 

Meu amigo ficou surpreso e impressionado que ele tinha compartilhado comigo pois, segundo ele, não era um assunto que Marquinho gostava de falar muito. Não sei porque ele me contou, não tive a chance de conversar pessoalmente com ele depois. Mas, não importa, em pensamento e oração eu já agradeci a ele pela confiança por ter me escolhido para dividir essa parte tão dolorosa e inspiradora da sua trajetória.

De alguma forma, senti sua presença naquele cinema, vendo “Elsinore”, em Hollywood. Muitas das experiências que Ian Charleston viveu, inclusive a relação do ator com a sua médica, e que são tão bem contadas no filme, foram experiências que Marcos Maya viveu e me contou naquela festa de casamento, em Santa Tereza, no Rio, em 2009.

 

 

Marcos e eu brincávamos que éramos amigos de baldinho que brincavam nas areias de Copacabana, que significa termos sido amigos de infância, uma história hilária que criamos em uma das muitas noites divertidas que vivemos. Essa foi no Chez Michou de Ipanema, uma creperia famosa no Rio. Essa filial do Chez Michou não existe mais. Marcos já não vive nesse plano há quase 13 anos. Mas de alguma forma, eu senti a sua presença naquela sala de cinema. Ouvi muita gente chorar ao meu redor. Fiquei pensando em quantas pessoas ali e pelo mundo afora, perderam entes queridos em decorrência da AIDS.

Para mim o filme foi uma catarse, uma homenagem, um reencontro. Agradeço ao AFI Fest pela oportunidade de assistir o imperdível “Elsinore”, e dedico esse post a você, amado Marcos Maya, obrigada por me confiar a sua história que viverá pra sempre comigo.

 

 

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