9 anos de EUA: Busca pela liberdade começa dentro de nós

“Você está, onde deveria estar”. Eu sempre acreditei nessa frase, que é mais um ditado popular do que qualquer outra coisa mas, hoje, quando completo nove anos, morando nos EUA, eu tenho certeza disso.

O interessante é que mais que estar nos EUA, este aniversário eu comemoro em Nova York, a cidade que foi meu primeiro sonho de viagem realizado no final dos anos 80, e o lugar onde minha vida mudou em 2015.

Sentada sozinha, tomando uma cerveja num bar desconhecido, numa região do Brooklyn que nunca estive antes, eu me sinto livre. A palavra é essa, sou uma pessoa livre. Ou seja, eu atingi um dos maiores objetivos da minha vida, às vésperas de completar 46 anos de idade, dia 18, ser totalmente, somente, livre. O engraçado é que as pessoas geralmente associam liberdade ao estado civil, mas para mim a maior liberdade que um ser humano pode sentir é se libertar das suas próprias paranoias.

Eu vim para os EUA porque era o meu sonho, mas mais que isso, eu vim pra cá porque eu precisava ser invisível. Nunca fui famosa ou popular, mas eu precisava viver num lugar onde eu começasse do zero a minha vida, um lugar que eu encontrasse o meu silêncio, o meu tão sonhado equilíbrio emocional. Como já disse antes, eu admiro as pessoas que conseguem fazer isso na sua terra natal, perto da família, cercada de amigos da vida, criando seus filhos. Eu não consigo funcionar da mesma forma, amo meus pais e familiares, tenho um grupo de amigos maravilhosos, mas eu, até com eles, funciono melhor à distância. Pode parecer loucura para alguns, da mesma forma que eu nunca entendi direito a necessidade das pessoas estarem sempre perto fisicamente para se amarem, para mim o amor de verdade vem mais dessa vida livre, sem paranoias, do que de uma convivência intensa, mas às vezes super conturbada. Mas sim, cada um pensa como pode, e enquanto eu acho que meus nove anos no exterior não foram nem por um segundo um ato de coragem, mas o resultado da minha determinação, eu admiro quem consegue fazer isso sem nunca ter saído do seu país de origem, ou seja, eu admiro e aplaudo a grande maioria de vocês. Eu reinventei a minha jornada porque eu senti necessidade, e embarquei na jornada de ir morar em Los Angeles, em 3 de setembro de 2009, e agora morar literalmente num avião entre a Cidade dos Anjos e a The City, porque essa vida cigana é instabilidade pra alguns, é aprendizado pra mim.

Uma coisa eu tenho que admitir: morar nos EUA não é fácil, afinal eu vim pra cá aos 37 anos porque eu quis, eu que tive que aprender a falar inglês direito e me adaptar à cultura local. Acho os americanos ótimos, especialmente os nova-iorquinos, e discordo de quem mora aqui e diz o oposto. Porque eu sei que cada um julga os outros por si mesmo, mas se você decidiu morar no país dos outros, você é que tem que se adaptar a eles e não eles a você.

Partir pra uma terra que não é sua, não é uma tarefa fácil. Uma coisa é seu sonho, a outra é a prática, e pra realizar os sonhos, só muita prática. Drama e frescura não levam você a lugar nenhum na terra estrangeira. Em seu país de origem, se você gosta de um drama, ainda tem a audiência da sua família e pode reclamar da vida na sua língua mãe. Aqui não tem nada disso, e se dá bem quem percebe isso, arregaça as mangas, fala menos e vai à luta! Muitos ficam no meio do caminho. Não chegam a lugar nenhum e culpam o universo dos seus fracassos. Descordo. Se no seu país você precisa de foco, aqui você precisa de foco multiplicado por mil. Eu brinco e digo que há 9 anos estou exausta. É cansativo batalhar pelo seu espaço num lugar que já está lotado de gente fazendo o mesmo e muita gente, a maioria, melhor que você. Porque a gente não fala inglês tão bem assim, salvo raras exceções, a gente não tem visto, a gente tem que lidar com vários aspectos que todo americano que vai pra LA ou vem pra NY não precisa se preocupar.

Tem solução? Claro! Seja humilde, alto astral, mostre o seu diferencial. E isso é mais cansativo do que simplesmente ir lá e fazer bem o que você faz bem. Nesses nove anos, eu aprendi que pra brilhar você tem que entrar pela porta dos fundos, como me disse um mentor há anos atrás e foi a melhor dica que recebi na vida. Caminhe e batalhe até você conseguir chegar e abrir a porta da frente. Eu entrei pela porta dos fundos que, sim, estava aberta, e fui compartilhando o que tinha de melhor, acho que tô na sala de jantar já, mas a porta da frente ainda não abri, pra que a pressa?! Se nessa jornada eu já colecionei tantos momentos preciosos, posso deixar a ansiedade de lado e continuar humildemente a minha caminhada. Como agora sentada neste bar em Dumbo, rodeada de desconhecidos que me cumprimentam com um sorriso e representam a diversidade que todo mundo tanto fala (um casal de meninos gays, um casal de lésbicas, um amigo de 70 tomando seu chopp solo, um casal heterossexual, sendo ele um americano branco e ela oriental, dois amigos negros, discutindo sobre problemas com suas respectivas namoradas, um casal hispânico, que, pelo que parece, está saindo pela primeira vez.) Todos me dão o tempo que preciso pra ser livre, não duelar com meus pensamentos, ao contrário, a liberdade me dá a chance de estar sempre confortável comigo mesma e escrever um texto celebrando meu aniversário nos EUA, tomando um drinque num local badalado, lotado, com música alta, mas onde pareço estar só colhendo os frutos dessa jornada que pode não ser fácil mesmo, mas, pra mim, é fascinante.

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