“Manas” foi um dos filmes brasileiros mais relevantes que assisti até hoje. E também um dos que mais me tocaram. Como a própria diretora, produtora, roteirista, Marianna Brennand confessou no papo depois da sessão em LA, eu também não sabia sobre os abusos sofridos pelas mulheres, especialmente crianças e adolescentes, que moram às margens do rio, no Pará.




“O Brasil é um país muito grande e eu vivia na minha bolha privilegiada. Não tinha ideia da realidade abusiva que as mulheres enfrentavam na região ribeirinha no Pará. Até a Fafá de Belém, uma famosa cantora no Brasil, que é minha amiga minha e é natural da região, compartilhar comigo essa história. À princípio, ela, que sabia que eu era documentarista, me contou com a intenção de sugerir que eu fizesse um documentário. A ideia era justamente chamar a atenção para essa comunidade que é esquecida pelo governo, políticas públicas e pela própria sociedade brasileira. Essas mulheres vivem praticamente na floresta, sem tecnologia, sem acesso à internet ou qualquer recurso. Eu fiquei obcecada com a ideia de mostrar pro mundo essa história e fui até lá conhecer a região. Inicialmente, a ideia era fazer um documentário mesmo, isso há mais de 10 anos. Mas, logo vi que seria arriscado para as próprias mulheres, já que muitas delas vivem com os abusadores (pais, maridos, membros da família), iam arriscar suas vidas se falassem. Por isso, decidimos fazer um longa sobre o assunto.
Só que eu sabia desde o início que o roteiro precisava ser bem trabalhado, que a visita que eu tinha feito não bastava, eu precisava mergulhar numa pesquisa mais detalhada. Conhecer melhor a comunidade, fazer entrevistas com os moradores e também com autoridades e religiosos que trabalham na região. E foi o que fiz com a ajuda dos produtores e roteiristas.
Inclusive a personagem da delegada, lindamente interpretada pela atriz Dira Paz, é baseada na freira Irmã Henriqueta Ferreira Cavalcante e no delegado Rodrigo Amorim, que trabalham na região do Marajó com essa comunidade e foram fundamentais para que entendêssemos o que acontece no local, como a comunidade vive, como os abusos acontecem. Enfim, foram nossa principal fonte na elaboração do roteiro e na execução do filme.”

O roteiro do filme é realmente espetacular e muito bem executado, especialmente porque não vemos nenhuma cena de abuso, mas sabemos claramente quando acontecem. Ao mesmo tempo, o elenco é a grande estrela da obra, com destaque para a atuação de Jamilli Corrêa, que fez sua estreia na telona. A jovem atriz deu um show à parte e conquistou o coração de Marianna e do público, como conta a diretora:
“O processo de escrever e produzir esse filme foi longo e, muitas vezes frustrante, ao mesmo tempo, eu sei que aconteceu na hora certa graças à Jamilli, que é uma atriz nata, que mora na cidade próxima à região. Quando começamos a desenvolver o filme, ela nem era nascida, ou seja, o destino quis que ela fosse a Marcielle, o que foi essencial para a história funcionar na telona.

Ela é uma atriz instintiva. Conversamos bastante, tanto com ela, como com as outras crianças. Elas nunca leram o roteiro todo, íamos compartilhando as cenas, ensaiamos, tínhamos terapeutas no set, porque queríamos proteger nossos jovens atores da dor que seus personagens vivem. Fomos muito cautelosos nesse aspecto, era meu maior objetivo não traumatizar meus atores com as dores de seus personagens. Então, a gente brincava muito, criamos um ambiente amoroso, seguro e divertido, o oposto da realidade. Ao mesmo tempo, os atores captaram bem a trajetória dos personagens e isso foi fundamental para o resultado final.”
Eu acredito que um filme tem o poder de transformar a sociedade, e “Manas” chamou a atenção para a realidade abusiva que mulheres e meninas vivem às margens do rio no Pará. O ator Sean Pean foi um dos produtores executivos do projeto e a atriz Julia Roberts promoveu “Manas” em Hollywood. Eu acho importante mostrar para o mundo o que acontece nessa remota região do Amazonas, pois conhecimento traz mobilização, da sociedade e do governo. Impossível ignorar a realidade.
E, tão importante quanto levar a história dos abusos sofridos por mulheres, crianças e adolescentes na região pro mundo, é educar a comunidade, como disse Mariana:
“Nosso projeto inclui exibir o filme na região, chamando a atenção para sinais de abuso, criando um grupo de apoio que atenda a essas mulheres, incluindo crianças e adolescentes, para que elas se sintam seguras em denunciar seus abusadores, a fim de evitarem tragédias. Não é um trabalho fácil, o ciclo abusivo acontece há anos, a comunidade não tem recursos e as autoridades não são confiáveis, nosso objetivo é mudar isso através da arte, educação. Algumas ONGS estão nos apoiando. Pode ser que leve muito tempo, mas não vamos desistir.”

“Manas” é imperdível! Assistam, aprendam, divulguem, a gente também pode ser a voz dessas mulheres silenciadas nessa região remota do Brasil.
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