
“One in a Million” foi filmado ao longo de dez anos. O documentário acompanha a trajetória de Israa, uma jovem que, aos 11 anos de idade, deixa sua casa em Aleppo, na Síria, com a família, em busca de segurança na Alemanha. Longe de casa, ela enfrenta os desafios do exílio, as dificuldades de adaptação e as marcas deixadas pela guerra. Enquanto cresce em um país estrangeiro, a jovem atravessa mudanças pessoais e familiares, lidando também com perdas, incertezas e desilusões. Anos depois, seu caminho a leva de volta à Síria, onde precisa confrontar as transformações provocadas pelo conflito e pela distância. Entre partidas e retornos, o filme apresenta um retrato íntimo da experiência de ser refugiada. Fonte: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-1000037179/

O documentário foi codirigido pelo casal Itab Azzam and Jack MacInnes, que deixou a Síria em 2011 e hoje também mora na Alemanha.
Jack esteve no AFI Fest para apresentar o doc, que ganhou o prêmio de direção e o prêmio do público na categoria de documentário de cinema mundial no Festival de Cinema de Sundance esse ano.


No papo depois da sessão, Jack compartilhou mais detalhes sobre os bastidores desse projeto que foi mais longo do que o planejado. Os destaques da conversa estão abaixo:
A ideia
A gente foi à Turquia porque a ideia era fazer alguns episódios de uma série sobre famílias que tinham deixado a Síria e estavam esperando a chance de sair da Turquia para buscar asilo em outros países da Europa, como a Alemanha.
A gente começou entrevistando várias famílias, algumas não tinham nenhuma intenção de fazer a travessia, outras iam embora no dia seguinte e não teríamos tempo de acompanhá-las e tiveram algumas que nos deram entrevistas, mas depois desistiram de participar de um doc e pediram que não usássemos suas entrevistas. Isso acontece quando estamos rodando um documentário, tem pessoas que desistem.

Quando a gente conheceu a Israa, rolou uma química imediata com ela e com a família dela. Isso não tinha acontecido com as outras famílias. A gente resolveu também que o formato deveria ser um documentário longa, não em episódios. Conversamos com eles que toparam serem filmados. Foi aí que demos início a nossa parceria.
Uma década de filmagem
Eu e minha esposa deixamos a Síria em circunstâncias muito privilegiadas, anos antes, mas a gente via as famílias na Turquia e a gente tinha vontade em fazer um documentário sobre a travessia de uma família e também queríamos acompanhar a sua trajetória no exílio. A ideia inicial era fazer o documentário durante 7 anos. Isso aconteceu no ano que vimos “Boyhood”, o filme do Richard Linklater, que ele rodou por 12 anos e foi um sucesso, enfim nos inspirou a pensar em um documentário que fosse rodado ao longo dos anos.


Acabamos levando 10 anos para finalizar e doc, foi mais tempo que imaginamos. Essas ideias são sempre complicadas porque é mais difícil encontrar financiamento para um projeto como esse, sem dúvidas. Mas a gente não queria correr, até porque a Israa estava entrando na adolescência, que é um período importante e transformador na vida de qualquer pessoa, porém ainda mais intenso na vida de quem vive no exílio. E foi uma decisão acertada porque acabamos acompanhando ela em fases muito diferentes da vida, da infância, adolescência, ao casamento e até ela se tornar mãe. Foi muito especial.
Proximidade
Nós passamos muito tempo com essa família que passou por muitas mudanças, especialmente depois que foram viver na Alemanha. A gente ficou muito próximo da Israa. Conversamos muito, ficamos amigos. Ela sempre soube que podia contar com a gente. Ao mesmo tempo, a gente não estava presente o tempo todo. Muitas vezes passávamos meses sem gravar a pedido dela, para respeitar também um pouco da sua privacidade.


Claro que em um projeto tão longo sempre existe a possibilidade deles desistirem. Se a Israa nos falasse que não queria mais continuar com o doc, a gente cancelaria o projeto na hora, em respeito ao desejo dela. Por mais que isso significasse que perderíamos anos de trabalho. Faz parte, foi um risco que corremos. Mas, ainda bem que ela nunca chegou a pensar em parar. Quando precisava de um tempo, ela falava e a gente dava um intervalo. Mas sempre retomávamos as gravações.
O fim
Depois da viagem à Síria, a gente sabia que seria uma boa forma de encerrar o doc, ainda não tínhamos certeza se ela voltaria pra lá ou continuaria morando na Alemanha, mas foi uma forma bonita de fechar o ciclo. Mostramos ela e a família saindo de sua casa em Aleppo dez anos antes e voltamos lá com ela, seu marido e seu filho. Foi muito emocionante para ela e para todos nós.
A Israa por enquanto está na Alemanha. Somos amigos e estamos criando nossos filhos juntos, nos vemos sempre. Ficamos muito felizes com a excelente recepção desse documentário nos festivais que participamos, ela inclusive vem para os Estados Unidos para a première que faremos aqui. Nos consideramos família e tudo isso graças a essa década que passamos juntos para realizar esse trabalho. Foi um presente pra todos nós.

Eu sou muito fã de documentário e, como sempre, me emocionei bastante. Uma coisa é imigrar de forma privilegiada como eu fiz, a outra é ter que sair correndo do seu país, deixar sua casa e suas memórias pra trás, por conta de uma guerra que destruiu e matou milhares de pessoas da sua família e dissipou a sua comunidade.
Se os imigrantes privilegiados como eu já encontram desafios e vivem o preconceito na terra estrangeira, a situação dos refugiados é infinitamente mais complicada e delicada. Por outro lado, como a jornada da própria Israa e da sua mãe nos mostra no doc, pode ser uma libertação deixar um país tão conservador. Não quero dar spoilers , porque vale muito a pena ver “One in a Million”.