Oscar 2020: Indicados ainda refletem uma Hollywood sem uma real diversidade

Hollywood está em polvorosa, chegou o dia da festa mais importante da indústria cinematográfica. Estamos em LA e conferimos os bastidores do Oscar 2020. Vamos dar uma planilha pra vocês da festa que acontece hoje, e aproveitamos o momento para fazer uma reflexão sobre os filmes, diretores, atores e atrizes que estão concorrendo ao prêmio mais importante do cinema.

 

 

Confesso que na lista dos indicados ao Oscar 2020, na categoria melhor filme, “Parasita”, que considero o melhor filme do ano, me empolgou de fato.

Gostei bastante de “História de um Casamento” e “Adoráveis Mulheres”; “Ford vs. Ferrari” foi um bom entretenimento, assim como “Jojo Rabitt”. “Era uma vez… em Hollywood” até me surpreendeu positivamente, levando em consideração que não sou muito fã de Quentin Tarantino.

Achei “O Irlandês” muito longo e os atores melhores que o filme em si. “Coringa” é bacana, Joaquin Phoenix está excelente, mas é uma estória que já foi contada muitas vezes, acho que os estúdios podiam começar a dedicar seus orçamentos milionários para projetos de jovens cineastas, preferencialmente não homens brancos americanos, nada contra o diretor de “Coringa”, Todd Phillips, que é um gato, talentoso e super simpático, mas tem muitos “Todds” que merecem uma chance pelo mundo afora.

O filme de Sam Mendes, “1917”, eu dispensaria da lista, porque nada mais cansativo e previsível do que premiar, pela milésima vez, a estória de um soldado branco. Foi a melhor campanha do Oscar da temporada, e creio que conseguiu o espaço que tanto almejava na corrida pela estatueta, mas, realmente, chega a me deixar triste um filme como esse ser tão badalado.

 

 

Em suma, com exceção de “Parasita” e “Adoráveis Mulheres”, nenhum dos indicados mencionados acima estão entre os meus 10 favoritos da última temporada. Mas verdade seja dita, essa lista é um retrato fiel da Trumplândia, que finge ser liberal. A indústria cinematográfica é dominada por homens brancos, que apesar dos movimentos “MeToo” e “Oscarissowhite”, continua privilegiando filmes sobre brancos, para brancos, e os filmes sobre eles mesmos, claro, que chegam a ter Hollywood no nome.

Sem contar que as indicações da categoria melhor diretor pertencem ao “Clube do Bolinha”, mesmo em um ano que tantos filmes excelentes foram dirigidos por mulheres.

Os atores brancos dominaram as categorias melhor ator e ator coadjuvante, assim como a categoria melhor atriz e atriz coadjuvante foi dominada pelas atrizes brancas (com exceção de Cinthya Erivo, que foi indicada na categoria melhor atriz, por sua atuação em em “Harriet”). Destacando ainda que a indicação de Scarlett Johansson, nas duas categorias, me dá a impressão que os membros da Academia não assistiram aos filmes enviados para o grupo, como “The Farewell”, que não foi nem indicado ao Oscar, mas ontem levou o prêmio de melhor filme e Zhao Shuzhen, melhor atriz coadjuvante, no Spirit Awards, que celebra o cinema independente, e que está na minha lista de filmes favoritos do ano.

Os manda-chuvas da Academia afirmam que estão trabalhando arduamente para diversificar substancialmente seu membros, convidando mais atores, diretores, produtores afro-descendentes, mulheres e estrangeiros (especialmente latinos) para fazerem parte da organização. O objetivo é que aumentando a diversidade dos eleitores, o Oscar deixe de refletir o gosto da maioria, até então branca. Nosso Rodrigo Santoro está entre os novos membros da Academia e esperamos que ele nos represente bem na organização, enquanto eu torço para encontrar, na lista dos indicados do Oscar 2121, meus filmes prediletos desse ano, a maioria que assistirei nos festivais de cinema.

Quanto à cerimônia de hoje, importante levarmos em consideração que, na categoria melhor filme, todos os membros da Academia votam não no seu predileto, mas dão uma nota de 1 a 10 nos filmes indicados, com isso, o vencedor não é necessariamente o filme favorito da maioria, mas é o que teve uma média melhor. Essa tática privilegiou “Moonlight” que levou do (chato) “La La Land” há uns anos e, ao mesmo tempo, deu a estatueta ao péssimo “Green Book”, ano passado.

Espero, com uma ponta de esperança, que seja o ano de “Parasita”, que seria o primeiro filme estrangeiro a levar nessa categoria melhor filme. Infelizmente, acho que o vencedor vai ser o retrato fiel e retrógrado da indústria cinematográfica nos EUA, porque não importa quem leve a estatueta, “1917”, “Era uma vez..em Hollywood” ou o “Irlandês”, os favoritos, ou até “Jojo Rabitt” ou “Ford vs Ferrari”, que são divertidos, mas sem alma, ou seja, a cópia fiel da cúpula que domina a capital do entretenimento.

Nos resta esperar pela próxima temporada de premiações e torcer para que os novos membros da Academia se manifestem e que nós, negros, latinos, asiáticos, mulheres, possamos ver também o nosso reflexo na cerimônia do ano que vem.

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