Quando vim morar nos EUA, há quase 17 anos, eu não tinha ideia que me sentiria em um “limbo” entre o Brasil, onde nasci e cresci, e o país onde escolhi morar. A sensação é estranha, pois, ao mesmo tempo que eu sei que nunca vou pertencer a terra estrangeira, eu também sinto que já não pertenço completamente ao lugar de onde eu vim.


Bom ressaltar que estou falando sobre a minha experiência pessoal, não sobre a experiência de um brasileiro que decidiu morar nos EUA ou em um outro país. Até porque a jornada de cada um é bem particular e depende muito da personalidade, objetivos, estilo de vida e das razões que fazem cada um de nós imigrar.
O espetáculo de teatro “English”, que ganhou o Pulitzer (prêmio considerado o “Oscar” do jornalismo, literatura e música) em NY, descreve perfeitamente pessoas que, como eu, se sentem no “limbo” entre o país de origem e o país onde residem.


A peça centra-se em quatro adultos iranianos que se preparam para o Teste de Inglês como Língua Estrangeira (o TOEFL), o qual é crucial para suas ambições de estudar ou viver no exterior. Entre os alunos estão Elham (Tala Ashe), aspirante a estudante de medicina; Omid (Babak Tafti), que busca um *green card*; Roya (Pooya Mohseni), que deseja se comunicar com sua neta canadense; e Goli ( Ava Lalezarzadeh )que é dedicada e determinada a aprender inglês. Sua professora, Marjan (Marjan Neshat) — que passou nove anos em Manchester, Inglaterra —, impõe uma rigorosa regra de falar apenas inglês em sala de aula, criando tensão e evidenciando os conflitos pessoais e culturais que cada aluno enfrenta.

Eu me identifiquei com o espetáculo em muitos momentos, me emocionei e, mesmo a peça mostrando a realidade dos iranianos, ficou claro pra mim que não importa o meu país de origem, pois se falo um idioma e venho de uma cultura diferente do país onde moro, tenho muito em comum com os personagens.

Eu assisti o espetáculo no The Wallis,um dos meus teatros favoritos em LA, que é um centro cultural onde artistas locais, nacionais e internacionais compartilham sua arte. A maior parte da plateia, que lotava o local, era de iranianos mas encontrei latinos, brasileiros e mesmo estadunidenses que prestigiaram a peça premiada.

O interessante é que o espetáculo é falado em inglês sem sotaque, quando os atores estão falando Farsi (sua língua mãe), quando estão aprendendo inglês na aula, eles falam com sotaque e, no final, falam em Farsi, em um momento que eu não precisei entender o diálogo, já que não falo Farsi, para me sentir representada pelas duas personagens em cena.
Claro que isso se deve não só ao roteiro brilhante, como a atuação do elenco, que está sensacional.



Hoje, depois de ter deixado o Brasil há quase duas décadas, eu tenho consciência que esse “limbo” é consequência da minha escolha. Não é fácil saber que não pertenço mais ao Brasil como pertenci um dia e, ao mesmo tempo, viver a realidade de ser uma eterna gringa na terra estrangeira. Mas eu só sou a pessoa que sou hoje porque eu saí do meu país e vim para os EUA e eu gosto de quem eu me tornei. Eu sigo errando e aprendendo a me comunicar em inglês e tenho orgulho do meu sotaque. Também me identifico com vários aspectos da cultura estadunidense, sem deixar de valorizar a cultura brasileira.

Como os personagens de “English” cada um deseja partir do seu país de origem, ou voltar depois de uma longa temporada morando no exterior, por razões diferentes. Tem gente que quer apenas viver uma experiência temporária fora da sua zona de conforto, gente que acaba ficando pra sempre e, como eu, entende o limbo, sem contar aqueles que jamais tiveram o desejo de deixar o seu país. Essa diferença faz de nós seres fascinantes, como esse sensível e inesquecível espetáculo de teatro que refletiu algumas das dores e delícias da minha vida. Nota 1000!