Brooklyn: Para quem está longe de sua pátria

“Você vai sentir tantas saudades de casa, que você vai querer morrer. E não tem nada que você possa fazer a não ser enfrentar a dor, e você vai e ela não vai te matar. E um dia, o sol vai nascer, e você pode nem perceber imediatamente, mas você vai se pegar pensando em alguma coisa, ou em alguém que não tem nenhuma ligação com o seu passado, alguém que é só seu, e você percebe que é neste lugar que a sua felicidade está.”, Eilis Lacey, em “Brooklyn”.

 

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A simplicidade do enredo do filme “Brooklyn” lembra os clássicos estrelados por Audrey Hepburn, “Sabrina”, “A Princesa e o Plebeu”, “Bonequinha de Luxo”, e por contar muito bem uma história singela, foi eleito o filme predileto de 2015 por vários críticos de cinema nos EUA.

Raramente se vê um filme assim hoje em dia, “Brooklyn” ee um excelente representante do que um dia foi a arte de se fazer cinema. Mas para milhões de pessoas como eu, que imigraram para os EUA em busca de oportunidades e da realização de seus sonhos, “Brooklyn” é um relato autobiográfico.

Baseado no livro de mesmo nome, do autor irlandês Colm Tóibín, lançado em 2009, conta a história da jovem Eilis Lacey, que com dificuldade de conseguir um bom emprego na Irlanda, nos anos 50, se muda para o Brooklyn, em Nova York, para trabalhar numa loja de departamentos e sente na pele as dores e as delícias de se adaptar à terra estrangeira. E quando tem que voltar pra sua terra natal, por conta de uma tragédia familiar, descobre que na verdade não pertence mais a sua pátria, mas a dois lugares no mundo.

De todas as experiências boas e desafiadoras que tive nesses quase sete anos morando nos EUA, o fato de ter percebido que meu coração agora pertence a uma linha imaginária que marca a fronteira entre o Brasil, para sempre meu porto seguro, e o país que escolhi viver, me fez derramar muitas lágrimas quando assisti à pré-estreia do filme.

Eu entendo perfeitamente que vários amigos no Brasil não tenham se identificado da mesma forma que eu me identifiquei com o filme, que fala diretamente para quem vive fora da sua pátria, como a maioria de pessoas que lotavam o cinema em LA. Mesmo aqueles que nasceram aqui, que são filhos ou netos de imigrantes, especialmente irlandeses que construíram este país, e talvez por isso a história de Eilis que pode não ser a deles diretamente, os emocionou profundamente.

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Quando a nossa sessão acabou fomos premiados com um bate-papo com a protagonista, Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de Melhor Atriz, o diretor e a produtora do filme. Quando o moderador do Q&A abriu para perguntas da plateia, um senhor de uns 70 e muitos anos se levantou e com lágrimas nos olhos disse que o pai dele foi um dos milhões de irlandeses que imigraram para o Brooklyn e trabalharam na construção das pontes e do metrô de Nova York, como mostrado em uma das cenas do filme. Ele só agradeceu por terem feito esta obra que de certa forma é uma homenagem a todas as famílias de imigrantes do mundo inteiro que fizeram dos EUA o país que é hoje.

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Emocionada Saoirse retribuiu o agradecimento contando um pouco de sua história pessoal, que é semelhante a de sua personagem, sendo que a atriz nasceu em NY, mas foi criada na Irlanda, terra natal de seus pais, e disse que por isso entende tão bem o que e ter um coração dividido entre duas nações. Hoje ela voltou a viver em NY, próximo ao Brooklyn.

“Brooklyn” é o único filme indicado ao Oscar este ano que não e baseado em fatos reais, como “Spotlight – Segredos Revelados”, “A Grande Aposta”, “Ponte Dos Espiões” ou eventos históricos como “O Regresso”. Também não é uma história de aventuras no espaço, como “Perdido Em Marte”, muito menos de um mundo futurista cheio de efeitos especiais, como “Mad Max: Estrada Da Fúria”. Por fim, “Brooklyn” não trata do sofrimento de uma jovem enclausurada que engravida de seu sequestrador, como em “O Quarto De Jack”. Assisti a todos esses filmes ótimos e acho que cada um deles tem seu mérito. Mas “Brooklyn” conta a minha história de vida, nos diálogos divertidos ou doloridos de Eilies, no relacionamento da protagonista com a sua mãe, sua irmã, seus amores, amigos e sua terra, tanto onde nasceu, como a que veio morar, eu vi um reflexo da minha própria trajetória. E é por isso que o filme conquistou um lugar especial no meu coração. Na verdade, ele já é o vencedor do “meu Oscar”.

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Mas mesmo que você não tenha saído da sua pátria para morar no exterior como eu e Eilis fizemos, vale a pena assistir a esta história romântica, leve, engraçada, que conta com a participação da atriz Emily Bett Rickards, a intérprete de Felicity, na série “Arrow”, que embora seja pequena faz a gente dar boas risadas. Seja qual for as características da sua jornada de vida, vale a pena dar uma “passada” no “Brooklyn” e entender porque este filme é tão importante, especialmente neste momento que Donald Trump promete construir muros para evitar a imigração nos EUA, Brooklyn lembra a ele e a todos os que concordam com sua plataforma política, que sem os imigrantes, este país simplesmente não existiria. Com isso, o filme ganhou um importante papel na história política atual do país.

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Este post é dedicado a todos amigos que não têm nenhuma conexão com meu passado, àqueles que conheci na terra estrangeira, e que me ajudaram a encontrar a felicidade no meu novo lar!

Trailer legendado:

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