Extraordinário: Sem julgar o livro pela capa

“Eu acho que toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo.”

Felizes aqueles que tem o hábito da leitura, um dos mais saudáveis e prazerosos, que nos permite relaxar o corpo e soltar a imaginação. Independente do gênero e do estilo do escritor, os livros sempre entretem, alguns em especial têm o poder de transformar as nossas vidas.

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Entre os livros mais profundos e os que mais tocaram meu coração quarentão nos últimos anos, estão aqueles dedicados ao público adolescente e jovem. Além de John Green, meu mestre absoluto, as autoras das “Sagas Jogos Vorazes” (Suzanne Collins) e “Divergente” (Veronica Roth) também abordaram assuntos adultos muito importantes na pele de personagens bem jovens. O que eu sinceramente acho um presente fantástico para a geração do século XXI.

O mesmo fez RJ Palácio, autora de “Extraordinário”, que faz jus ao título. Aqueles que tiveram o prazer já de conhecer August Pullman, o protagonista, vão concordar comigo. E se você ainda não teve o prazer de conhecê-lo, espero despertar a sua curiosidade com este post.

“A grandeza não está em ser forte, mas no uso correto da força.”

Auggie, como é conhecido pela família, tem 10 anos de idade e seu rosto é “desfigurado” ou como alguns dizem “deformado” (termo que nem eu, nem a autora do livro gostamos), por conta de uma mutação genética, no cromossoma de número 5, um daqueles casos que têm uma probabilidade mínima de acontecer e que a medicina por mais avançada que seja, pouco explica.

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Gus é filho de um americano e uma brasileira que cresceu nos EUA, tem uma irmã mais velha, Via, que tem um rosto lindo e perfeito. E sua cachorrinha Daisy. Fã de Star Wars, ele mora com sua família no norte de Manhattan, Nova York.

Conhecemos Gus no livro quando seus pais resolvem matriculá-lo numa escola. Afinal, ele que tinha sido educado em casa pela mãe até então, mas ele precisava amadurecer, conviver com outras pessoas, por mais cruel que isso soasse pra ele, o mundo era maior que sua casa e naturalmente ele teria que enfrentá-lo em algum momento, melhor começar no final de sua primeira década de vida.

Se já é difícil para qualquer um chegar numa escola nova, sem nenhuma deficiência física, em qualquer lugar do mundo, para August o desafio e elevado a milésima potência. Ele ja estava acostumado ao olhar e comentários agressivos das pessoas quando viam seu rosto, e quando desde cedo as crianças fugiam dele na pracinha, com medo, o chamando de mostro ou zumbi. Mas conviver com várias pessoas, especialmente de sua idade, diariamente, seria uma dor constante, pensava ele. É, claro, que August estava certíssimo, seria mesmo um pesadelo.

“Todo que é nascido de Deus vence o mundo.”

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E, nesta altura do campeonato, vocês devem estar imaginando qual a dimensão da mutação genética de Gus, nas palavras de Via, sua irmã:

“Seus olhos são abaixo de onde deveriam ser, quase na metade da bochecha, ele não tem as “macas do rosto”, assim como não tem orelhas, muita gente acha que ele sofreu queimaduras em um incêndio”, Mesmo depois de inúmeras cirurgias, o rosto de Gus não seria muito diferente daquilo. Essa seria sua realidade pro resto da vida.”

Sei que a descrição pode soar sofrida, o que poderia tornar a leitura pesada e triste. Mas “Extraordinário” e tudo menos dramático. A autora que ja trabalhava nos bastidores da indústria literária, teve a ideia de escrever sobre este tema no dia que viu uma menininha em frente a uma sorveteria portadora da síndrome. Ela inspirou esta história, e “Auggie” representa ela e muitas crianças pelo mundo afora.

O que mais me tocou no livro, não foi o rosto de Auggie em si, mas todos os outros aspectos que RJ Palácio abordou que vão muito além das palavras que ela escreveu. Ao contar esta história, ela mexe com uma leitora que seja tão linda como Gisele Bündchen, assim como com um leitor que esta alguns quilos “fora do peso”. Porque ela aborda os pesadelos da sociedade, falando da supervalorização da aparência física, de como nós, como sociedade (adultos especialmente) julgamos sem mesmo nos dar a chance de conhecer o outro, como somos superficiais, como reclamamos sem motivos, como estamos cada vez mais vazios como seres humanos, como criamos os nossos filhos preocupados em pertencer ao invés de ser. Como observamos mais a vida do vizinho e esquecemos de focar na nossa jornada. E como as aparências enganam. Nossa este é o ditado mais certeiro que já li na minha vida. E este livro é a prova viva disto.

“Seus feitos são seus monumentos.”

A leitura é fácil, prazerosa, a mensagem que era para os menores de 25 anos primordialmente, afeta mais os maiores de 35, eu acho.

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E no fundo, não importa a sua idade, se você curte histórias transformadoras, não deixe de conhecer Auggie, Olivia (Via), Jack, Summer, Justin e Miranda. Não tem como não se identificar, seja como o criticado, ou como aquele que critica. Todos nós temos um pouco (ou muito) de cada um, e isso não importa o rosto ou o corpo que temos, mas não mesmo. O segredo de evoluirmos como seres humanos esta em abrirmos espaço em nosso coração e em nossa mente para uma mudança profunda e sincera, e isso vai doer muito, mas sem dúvidas vai valer a pena. “Extraordinário” é um elemento apenas, mas que pode ajudar aqueles que querem se reinventar.

“Às vezes acho que minha cabeça é tão grande porque é muito cheia de sonhos.” – John Merrick, em O homem elefante, de Bernard Pomerance.

Este post é dedicado a minha querida amiga Renata Schmidt, que me falou deste livro há uns 2 ou 3 anos. Ela disse que eu ia gostar, eu amei, ela me conhece bem, muito bem. Para você, Re, com amor e saudades, meu beijo carinhoso! <3

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