“O Agente Secreto” é uma experiência cinematográfica. É um daqueles filmes que servem de exemplo para uma aula sobre a arte de fazer cinema.
Escrito e dirigido por Kleber Mendonça, protagonizado por Wagner Moura e um elenco sensacional, a narrativa explora temas como repressão política, vigilância estatal, memória, trauma, identidade, a manipulação da verdade e a resistência. O filme traça um retrato crítico e sensível da sociedade brasileira durante uma de suas fases mais difíceis, misturando suspense, drama e elementos de thriller e reforça o estilo de crítica social e política, com toques de folclore local e referências cinematográficas, marca registrada de Kleber.

Ambientado no Recife, em 1977, durante o período da ditadura militar no Brasil, “O Agente Secreto” acompanha a trajetória de Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário e especialista em tecnologia, que retorna à sua cidade natal, após anos afastado, e sendo perseguido por assassinos de aluguel em São Paulo, possivelmente, por conta de um conflito com um poderoso industrial e a uma patente vinculada à pesquisa acadêmica.
Com sua vida em perigo e sob constante ameaça e vigilância, Marcelo busca encontrar um pouco de paz, proteger seu filho pequeno que vive com os avós maternos (o avô é projecionista no icônico Cinema São Luiz), e, eventualmente, deixar o país. Ele encontra refúgio em uma casa segura com outros dissidentes e figuras marginalizadas, incluindo um casal de refugiados angolanos, além da figura maternal e líder Dona Sebastiana.

Ao tentar se reaproximar da família e do cotidiano, ele percebe que a cidade está sob intensa vigilância e corrupção do regime militar que ainda controla e persegue opositores. Marcelo acaba envolvido em uma rede de espionagem e conspirações, enfrentando dilemas morais e pessoais enquanto luta para proteger aqueles que ama e desvendar o próprio passado. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Agente_Secreto

Eu assisti “O Agente Secreto” em uma sessão privada em Los Angeles e sai boquiaberta com a maestria de Kleber e a performance de Wagner. Tanto o diretor como o ator foram premiados no prestigiado festival de Cannes, assim como o filme levou o Prêmio FIPRESCI, concedido pela Federação Internacional de Críticos de Cinema para a Melhor Filme da Competição Principal do festival.
“O Agente Secreto” está cotado para receber uma indicação ao Oscar na categoria filme internacional, assim como Wagner está entre os favoritos para ser indicado na categoria melhor ator.

Não é todo filme noir que eu curto mas eu amei “O Agente Secreto”. Eu cresci na ditadura militar, nos anos 70, e morei em vários estados do Brasil, inclusive na Bahia.
Acho que o filme abriu um porta no meu subconsciente e vi várias referências da minha infância refletidas na telona.
Fiquei impressionada não só com a brilhante atuação do elenco, mas com a produção de arte, as locações, a fotografia, a trilha, e como os objetos de cena, os carros, as cores, o cinema São Luiz e a música foram incorporados de forma espetacular ao roteiro criativo e ajudam a contar a estória escrita por Kleber Mendonça.

Enquanto “Ainda Estou Aqui” é um filme que pode ser usado como referência em aula de atuação (o filme é da Fernanda Torres), “O Agente Secreto” é uma referência de roteiro, direção e produção para futuros cineastas. Sem contar com a performance de Wagner Moura, que eu acho a melhor de sua carreira até hoje.
Eu espero que o filme quebre recordes de bilheteria no Brasil, embora, talvez, o estilo não seja tão popular como “Ainda Estou Aqui”, a genialidade com que a ditadura militar foi retratada no roteiro original de Kleber Mendonça deve se celebrada, não só com prêmios internacionais, mas pelo público brasileiro, no cinema, no Brasil. Afinal, são críticas como essa que mobilizam a sociedade para que uma ditadura nunca mais aconteça em nosso país.
Imperdível!!!!
Algumas curiosidades sobre O Agente Secreto:
“O Agente Secreto” nasceu do desejo de Kleber Mendonça Filho de realizar um “exercício histórico”, ambientando a trama em 1977, durante o governo de Ernesto Geisel, um período da ditadura militar brasileira que o diretor considera menos explorado no cinema em comparação com os anos de chumbo mais intensos. O roteiro foi escrito por Mendonça Filho ao longo de três anos, num processo descrito por ele como difícil, com longos períodos de improdutividade até que a história “passa a se escrever sozinha”. O roteiro finalizado continha 167 páginas.

A inspiração inicial para um elemento da trama veio de uma notícia de um jornal australiano sobre um tubarão encontrado com uma perna humana em seu ventre, que se transformou em uma homenagem a filmes de exploração dentro da narrativa. Outra sequência, envolvendo uma bomba de gasolina, originou-se de um curta-metragem que o diretor nunca chegou a filmar. Mendonça Filho afirmou que busca com seus filmes “suscitar ideias” em vez de “levar uma mensagem”, e que desejava fazer um filme sobre os anos 70 com “detalhes do coração”, explorando como indivíduos navegam e resistem a um sistema opressor. O abrigo de “refugiados” no filme simboliza um “bunker de afeição”.
As filmagens de “O Agente Secreto’ ocorreram ao longo de 10 semanas, entre junho e agosto de 2024, com locações nas cidades de Recife, Pernambuco, e São Paulo.

Mendonça Filho buscou recriar suas memórias afetivas de Recife em 1977, focando em detalhes como decoração, objetos, carros, jornais e telegramas para construir uma “maquiagem bem-feita do passado” que ainda ressoasse com o presente.A abordagem não visava uma reconstituição exata de incidentes da ditadura, mas sim criar uma “atmosfera tensa, densa e cheia de texturas” e um “clima sufocante” que dialogasse com questões contemporâneas. Locais icônicos de Recife, como a Praça do Sebo e o Cinema São Luiz, são centrais na narrativa, refletindo o interesse contínuo do diretor por cinemas como espaços de memória e vivência comunal, tema já explorado em seu documentário “Retratos Fantasmas”.