ROMA – de Alfonso Cuarón – Melhor filme do ano estreia na Netflix

 

Segunda-feira quando o diretor de “Roma”, Alfonso Cuarón e as atrizes Marina De Tavira e Yalitza Aparicio subiram ao palco depois da exibição do filme, numa sessão privada em Los Angeles, deram de cara comigo aos prantos, aplaudindo efusivamente, sentada na primeira fila.

 

 

“Roma”, como já foi dito por muitos, é o melhor filme de 2018 mas, sinceramente, para mim, é um dos melhores filmes que assisti até hoje. Uma carta de amor de Alfonso para a sua babá Libo, cuja personagem no filme se chama Cleo, e é interpretada por Yalitza Aparicio, atriz estreante que, segundo ela mesma, foi escalada sem querer. Ela acompanhou a sua irmã em um teste de elenco sem saber do que se tratava, em sua vila no interior do México. Sua irmã estava animada para participar de um filme, mas como estava grávida não ia conseguir concluir as filmagens. Com isso, ela assumiu a personagem que está conquistando Hollywood e o mundo.

 

 

O filme é baseado na vida da família de Cuarón, em um determinado ano da sua infância. A estória é contada pelo ponto de vista de Cleo. Foi rodado em preto e branco (por opção do diretor ) com uma fotografia deslumbrante, atuações  emocionantes, e o melhor, sem roteiro.

Como  Alfonso explicou no bate-papo após a sessão, ele tinha o roteiro, escrito por ele, baseado nas lembranças da sua infância, que compartilhou com poucos membros da equipe, mas não com o elenco. Como as próprias atrizes Marina e Yalitza contaram, todos os dias quando chegavam ao set, os atores recebiam instruções e dicas do diretor sobre o que aconteceria naquela  dia de gravação. Com isso, eles tinham uma ideia do que esperar e de como deveriam se preparar mas, no geral, a câmera captava a emoção e os diálogos  improvisados, trazendo uma naturalidade ao filme e uma verdade à estória que não víamos há muito tempo no cinema.

 

 

Ao surpreender os próprios atores com as tragédias e as alegrias do dia-a-dia de sua família, Alfonso criou uma obra-prima. Não é à toa que o filme já ganhou o prêmio máximo em diversos festivais de cinema ao redor do mundo, está indicado ao Golden Globes, além de ser um dos favoritos na corrida do Oscar.

Cuarón afirmou que, inicialmente, ficou um pouco surpreso com a recepção calorosa que a história da sua família recebeu. Ao mesmo tempo, ele entende que é uma história universal. O filme toca em inúmeros  aspectos relevantes da sociedade, especialmente da sociedade da América Central e da América do Sul. Como se passa em 1971, ele aborda o clima de guerrilha no México, um ambiente semelhante ao que acontecia no Brasil, que vivia o auge dos seus anos de chumbo.

Outro elemento que, como brasileiros, nos identificamos de imediato é o fato de termos uma pessoa, morando na nossa casa, que é responsável por fazer todos os serviços domésticos, sem contar que ela é quem cuida dos nossos filhos, os leva na escola e os coloca para dormir. E o interessante, como mostra em uma das cenas do filme, muitas vezes convivemos anos com esse anjo da guarda e nem ao menos sabemos o dia de seu aniversário , ou a cidade onde nasceu.

 

 

Isso porque a família de Alfonso não era milionária, nem mesmo rica. O filme mostra como a família  classe média media, mesmo quando está passando por dificuldades financeiras, tem alguém para lhes servir. As importantes questões abordadas em “Casa Grande e Senzala” ficam evidentes na narrativa de Cuarón, que é um retrato da sociedade onde ele (e eu) foi criado.

Para os norte-americanos fica um pouco difícil entender, já que ter um funcionário, como Cleo, não faz parte da realidade da maioria avassaladora da população nos EUA. Tanto que, na sessão em que eu fui, uma americana branca perguntou a Alfonso porque ele decidiu contar a estória pela perspectiva de sua babá e não da sua própria, já que era um filme sobre a sua família. O diretor não se prolongou, mas fez questão  de dizer que era porque Libo (Cleo) era a pessoa que ele mais amava na vida e que ele queria homenageá-la, já que tinha sido criado mesmo por ela. Ele ainda complementou dizendo que essa era uma situação  que, provavelmente, a maioria das pessoas nos EUA não iria entender profundamente, mas que em seu país era muito comum.

De qualquer forma, o realismo com que a jornada dos personagens foi apresentada leva audiências do mundo inteiro, independente dos aspectos culturais, a se identificarem com o filme. Os irmãos de Alfonso emprestaram objetos pessoais de sua infância para decorar o set de gravação. O filme foi rodado em uma casa muito semelhante a que sua família morava na época, no mesmo bairro, na Cidade do México. Enxergamos a verdade em cada cena, ouvimos a verdade nas palavras saídas do coração de cada um dos atores e na forma como o diretor captou cada imagem em sua câmera.

 

 

Cuarón afirma ter chorado todos os dias no set, seu coração estava lá. O diretor expôs, sem pudores, a beleza e toda a dor que ele, seus irmãos e sua mãe viveram naquele ano, que não foi fácil nem para eles, nem para Cleo que, apesar de estar enfrentando seus próprios problemas, continuou firme e forte ajudando a família que também adotou como sua.

Alfonso Cuarón disse que Libo assistiu ao filme inúmeras vezes. Ela aprovou e chora sempre pelo sofrimento das crianças no filme, como se não lembrasse que agora elas estão crescidas e bem-sucedidas (o diretor recebeu um Oscar pelo seu filme “Gravity”) mas, segundo Cuarón, para Libo eles serão eternas crianças.

“Roma” estreia nesta sexta na Netflix. Mas vou dar uma dica vinda direto do meu coração, ainda emocionado com o filme, se puder, assista na telona que o impacto é imenso. Mas, mesmo se não der, não deixe de conferir na TV. “Roma” é um conjunto de momentos da vida real de uma família, que pode ser a sua ou a minha, contados com maestria por um dos maiores cineastas de todos os tempos.

Trailer:

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