Ontem, 3 de setembro, fez 16 anos que moro nos Estados Unidos. Lembrando que sou privilegiada e estou aqui por escolha e não por necessidade. Vim pelo glamour e pelo status, ao decidir ficar, eu regredi de classe social (no Brasil, eu teria mais dinheiro e mais status) mas, no perrengue que eu não precisava passar, eu me encontrei.
Eu sempre quis vir pra cá, desde adolescente eu sonhava em morar nos EUA, obcecada por séries e filmes, eu queria viver na terra que criava as ilusões que eu via no cinema e na TV.


E assim aconteceu, até porque pra quem tem dinheiro realizar desejos é mole. Foi bem fácil morar aqui com a conta bancária recheada, que me deu a chance de ter uma jornada glamourosa durante muito tempo.
Aí chegou uma hora que a grana acabou e eu tive que começar a encarar a vida real na terra estrangeira. Uma vida ainda extremamente privilegiada, mas bem diferente do que eu teria se tivesse ficado no Brasil.


Aqui, sou mais uma latina na multidão. Tenho menos amigos, e mesmo tendo vivido um amor extraordinário, caminho sozinha a maior parte do tempo. Por incrível que pareça, foi a invisibilidade e o silêncio que me permitiram aprender tanto sobre mim mesma e até a entender as verdadeiras razões que me motivaram a permanecer aqui. (Essas são exclusivas do terapeuta).


Além disso, eu conheci os “bastidores” da terra da ilusão dos filmes e seriados através de amigas latinas que cresceram aqui, da minha experiência ao morar em LA, Austin e NY e das muitas viagens que fiz de carro pelo país. Conheço os Estados Unidos que vai muito além das cidades turísticas e que até muitos estadunidenses não conhecem. Colocar o pé na estrada, me faz não estar nem um pouco surpresa com o que está acontecendo agora – especialmente em relação à imigração – e saber também porque a administração Obama não foi a maravilha que o mundo pensa, justamente para quem o elegeu – os latinos.




Por saber de verdade como é a vida de um brasileiro privilegiado aqui, eu entendo quem tem dinheiro no Brasil e vem pra cá achando que vai ficar, mas, quando se depara com a realidade, volta. Eu entendo quem está aqui casado ou mora com roommate, a vida é muito mais barata e menos solitária. Eu entendo quem está fisicamente aqui, mas, praticamente, vive no Brasil, assim como eu entendo quem vive aqui com os luxos que uma família rica proporciona. Já estive nesse lugar e, não sou hipocrita, é ótimo.




Hoje, eu caminho solita, o que mudou meu padrão de vida, ralo mais, saio e viajo menos. Cortei vários cordões umbilicais emocionais com o Brasil, o que foi excelente para a minha saúde mental. Mas, sigo firme com as minhas amizades de décadas, que resistiram ao tempo e a distância. Saber que tenho os amigos que tenho no Brasil, me dá segurança aqui.


Eu também descobri que morar aqui não é um sonho realizado, mas um aprendizado necessário pra mim.
Ao contrário da maioria dos imigrantes que vem pra cá por necessidade, eu escolhi estar aqui e os perrengues são consequências dessa escolha, assim como os prazeres, alguns que compartilho nesse post.


Cada imigrante privilegiado tem a sua história. A minha não inclui sonho de carreira nos EUA, fama, criar filhos aqui, mas eu queria me encontrar em uma jornada que não tivesse destino, que fosse literalmente estrangeira pra mim.


E eu sei que sou a pessoa que sou hoje, porque eu mudei pra cá e eu gosto da pessoa que me tornei, por isso, essa experiência na terra dos Tongva, ainda está valendo. Espero seguir consciente dos meus privilégios, aprendendo e evoluindo, sempre