A Voz de Hind Rajab: Filme impacta ao trazer a realidade cruel de Gaza

Eu assisti “A Voz de Hind Rajab” no cinema de rua, Lumiere Music Hall, em LA. Tinha umas 10 pessoas e a sensação é que Hind estava falando conosco, apelando para ser resgatada e salva, de dentro da sala de cinema. Uma experiência única e intensa, que me deixou com a mesma sensação de impotência dos voluntários que tentavam ajudá-la em Gaza.

 

 

“A Voz de Hind Rajab” é ambientado em Gaza e acompanha a trágica história de Hind Rajab, uma garota de 5 anos de idade que morreu ao tentar fugir junto com sua família dos ataques israelenses. Escondida dentro do carro do próprio tio, ela ficou presa após o veículo começar a pegar fogo e, apesar de ter passado três horas no telefone com os voluntários da do Crescente Vermelho (Cruz Vermelha na região), foi encontrada morta, ao lado dos paramédicos, após 12 dias da ligação desesperadora. O longa faz uma dramatização dos acontecimentos, utilizando os áudios originais de Hind pedindo socorro e reportando as tentativas da ajuda humanitária de alcançá-la no meio do caos e dos ataques. Em uma série de denúncias, o longa aborda o tema que chocou o mundo, principalmente por conta da falta de acesso das ambulâncias que poderiam ter salvado sua vida. Fonte: AdoroCinema

Eu sabia do que o filme se tratava e estou acostumada a assistir documentários que contam histórias devastadoras, mas poucos filmes me tocaram e impactaram tanto quanto “A Voz de Hind Rajab”. Sou muito fã da diretora Kaouther Ben Hania, indicada ao Oscar por obras incríveis como “O Homem que Vendeu a Própria Pele” (2021), indicado na categoria a Melhor Filme Internacional e “Quatro Irmãs”, indicado na categoria melhor documentário, em 2024.

 

 

Nesse filme, Kaouther Ben Hania optou por combinar uma dramatização com atores do que aconteceu na sala do Crescente Vermelho, em Gaza, durante a ligação de Hind, com os áudios originais das ligações com as vozes de Hind, de sua prima, de sua mãe e dos voluntários. A diretora usou ainda vídeos originais, capturados pela equipe durante as ligações.

Tanto na dramatização, como nas imagens originais, acompanhamos a angústia e a frustração da equipe de voluntários que tentava mandar uma ambulância, que estava apenas a 8 minutos do carro, para resgatar Hind. Mas, como era uma zona de guerra, ocupada por Israel, o grupo tinha um protocolo a cumprir, que envolvia muita burocracia.

Mais devastador, ouvimos os apelos da menininha de 5 anos pedindo ajuda para salvar sua vida, enquanto ouvimos tiros e bombas, “ao vivo”.

O filme me transportou para a sala do Crescente Vermelho em Gaza. Eu senti o desespero de Hind, sua mãe e os voluntários. Os áudios com a voz de Hind tiveram um impacto enorme tanto no roteiro, como nos atores, em uma entrevista coletiva os atores , Motaz Malhees e Saja Kilani, que interpretaram os voluntários Omar A. Alqam e Rana Hassan Faqih, respectivamente, comentam sobre a experiência de ouvir os áudios pela primeira vez no set:

“A gente já tinha lido todos os diálogos que foram transcritos no roteiro, sabíamos o conteúdo, ensaiamos com o roteiro, mas a gente não tinha escutado as gravações. Quando chegamos no set pra rodar, no primeiro dia, a Kaouther nos deu um ponto eletrônico e foi aí que ouvimos pela primeira vez os áudios originais. Foi uma experiência completamente diferente de ler o roteiro. Foi muito intenso, parecia que a Hind estava no telefone falando com a gente mesmo. Mudou toda a nossa perspectiva como atores e, esse trabalho me marcou como ser humano como nenhuma outra coisa na minha vida até hoje”, disse Saja.

 

 

Motaz complementa e compartilha sua experiência, “ouvir as gravações realmente mudou tudo pra gente, não só os atores, como a equipe. Foi muito forte. Eu tive uma crise de pânico durante as filmagens. Fui muito bem amparado por todo mundo no set. Mas esse não foi uma trabalho fácil, embora muito necessário. Eu tenho muito orgulho de ter participado desse filme, mas tem dias que ainda sonho e escuto a voz de Hind, eu não vou esquecer a voz dela nunca”.

 

 

Eu também jamais vou esquecer a voz de Hind Rajab implorando para que os adultos salvassem a sua vida, assim como nunca vou entender de verdade a dor de sua mãe e o trauma que os voluntários viveram naquele dia.

Ao mesmo tempo, como disse Wesam Ramada, mãe de Hind Rajab, ela queria que a história de sua filha fosse contada, não só para honrar sua coragem e sua memória, mas também para representar as mais de 20.000 crianças que perderam a vida na guerra em Gaza.

Esse não é um filme triste ou emocionante, mas relevante, necessário, urgente. No começo, eu ainda chorei, mas com o passar do tempo, a situação fica tão desesperadora que eu nem consegui chorar mais.

 

 

Também não vou esquecer o desespero dos voluntários que estavam de mãos atadas, totalmente impotentes diante da situação, ao mesmo tempo que tentavam acalmar e consolar a criança.

Minha experiência no cinema Lumiere foi intensa e inesquecível. Para mim, cinema não é só entretenimento, mas também aprendizado. Eu sou grata pelas risadas, pelas lágrimas, pela emoção e diversão que os milhares de filmes que assisti na telona me proporcionaram, desde a adolescência, quando frequentava os cinemas de rua na Tijuca, até hoje, nesse cinema histórico de rua, em Beverly Hills.

 

 

Sou especialmente grata por ter a chance de ver “A Voz de Hind Rajab” ser eternizada nessa obra cinematográfica, que é também uma denúncia e um grito de alerta contra as atrocidades sofridas pelas crianças durante o genocidio.

A Voz de Hind Rajab nunca será esquecida. Hind Rajab não é um número, mas uma criança inteligente, articulada, corajosa e especial, que teve sua jornada interrompida de forma estúpida, brutal e desnecessária.

Mais um trabalho excepcional da diretora Kaouther Ben Hania que, na época do ocorrido, ouviu trechos dos áudios das ligações nas redes sociais e sentiu que deveria fazer esse filme, como ato de resistência. Recebeu todo o apoio da mãe e da família de Hind Rajab e contou com um elenco comprometido, que abraçou esse trabalho difícil e desafiador.

“A Voz de Hind Rajab” recebeu muitos prêmios e foi aclamadíssimo pelo mundo afora. Fico feliz que tenha também recebido uma indicação ao Oscar, que é uma vitrine para o filme ser conhecido por mais gente nos EUA.

O filme é triste, desconfortável, desesperador, devastador, mas NECESSÁRIO! Assistam!

 

 

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