Apresentando: M.A. Jr. e a Saga de Anete

No Dia Mundial do Livro, nada mais feliz do que comemorar a data  abrindo espaço no Hollywood é Aqui  para novos autores mostrarem seu talento.  No “Em Cartaz”, temos o prazer de apresentar “Destino”, de M.A. Jr.

 

 

Hoje, para vocês, o prólogo e o primeiro capítulo. Acompanhem, nas próximas semanas, a continuação da saga de Anete.
Boa leitura!

Prólogo

Era noite, a lua brilhava alta no céu, clara e cheia. Não havia estrelas, apenas aquela enorme bola branca mostrando toda sua influência sobra a terra e os seres que nela habitam.

Uma garota corria pela noite escura, pelas vielas daquela cidade estranha, ruas estreitas, sem uma alma viva se quer do lado de fora das casas. Ela corria com toda sua força fugindo de alguma coisa, fugindo de algo que a perseguia noite adentro. Seu rosto estava pálido de tanto medo, sua face expressava isso claramente. Ela corria tropeçando por entre as pedras e as poças de lama que encontrava pelo caminho, seu vestido branco estava rasgado na altura dos joelhos, sujos de lama, como quem já havia caído várias vezes durante o percurso.

Quanto mais ela corria mais perto se tornavam aquelas pisadas fortes que pareciam persegui-la. Uivos se ouviam de longe, de toda parte. Latidos ferozes. Era um som horripilante, capaz de dar medo em qualquer um. Os uivos estavam cada vez mais próximos, e a moça corria se apoiando pelas paredes das casas e olhando para trás fugindo do que lhe causava tanto medo.

Seus cabelos negros voavam na noite, seus pés descalços já ensanguentados de pisar em pedregulhos pontiagudos atrapalhavam sua fuga. Ela batia nas portas pedindo ajuda, pedindo que alguém a deixasse entrar, mas ninguém parecia escutar, ou fingiam não escutar.

Os uivos eram cada vez mais fortes, seja o que for que a perseguia estava cada vez mais perto, a cada esquina que ela dobrava era possível ver as sombras daquilo que a seguia nas ruas pelas quais ela acabara de passar.

Os telhados das casas também faziam barulho, algo corria por cima delas, algo com uma força enorme, pois com uma só pisada quebrava telhas e mais telhas jogando-as ao longe.

 

CAPÍTULO I

– Aaaaaahhhhh – ela gritava com toda sua força – nãooooo

– Acorde Anete – gritava uma mulher vestida de freira, sacolejando a moça de aparência frágil e delicada em sua cama – acorde, foi apenas mais um sonho.

– Nãooo, nãoo – ela gritava se debatendo.

– Acorde Anete – sacudia ainda mais forte a freira, tentando forçá-la a acordar, daquele que parecia ser mais um dos muitos pesadelos que a moça tinha.

De tanto ser agitada Anete acaba acordando. Seus olhos cheios de medo, uma expressão de quem havia acabado de sobreviver a um encontro com a própria morte. Ainda falava coisas sem sentido, como: Onde estão eles? Cadê eles? Eles vão me matar, vão me matar…

– Ninguém vai te matar – respondia a freira de olhos esverdeados e pele branca, abraçando-a quase que forçadamente, enquanto ela ainda assustada tremia na cama – foi só um sonho Anete, fique calma, foi só um sonho.

Aos poucos Anete foi se acalmando, nos braços daquela que parecia ser sua amiga de longa data, aquela que parecia está acostumada com essas crises de pavor e pesadelos no meio da noite.

– Acho melhor você ficar calma e voltar a dormir. Nada de mal vai te acontecer, foi só um sonho.

– Parecia tão real Justine, parecia que eles iam me devorar.

– Foi um sonho, apenas um sonho.  Ninguém vai te devorar, ninguém vai te fazer mal algum. Agora deite e vamos dormir.

Ela deitou e ficou mais calma ao perceber que aquilo foi apenas mais um sonho. Sonhos esses que se tornaram bem mais frequentes nos últimos tempos.

Anete vivia há muito tempo no Convento Santa Clara de Jesus.  A Irmã Teresa, que era a Madre Superiora, havia a encontrado no meio da rua, completamente ensanguentada, ao que parecia vítima de um atropelamento. A Madre levou-a ao hospital e ficou penalizada com sua situação. Anete não tinha nenhuma memória do seu passado, não lembrava nada sobre sua família, nem sequer o próprio nome. Assim, foi levada para morar no convento junto com as freiras. Como ela não lembrava nada, as irmãs resolveram chamá-la de Anete, já que havia em seu braço uma fina pulseira com este nome escrito.

Já fazia três anos desde que esse acidente aconteceu e os danos já pareciam irreversíveis. As memórias de Anete, talvez, nunca fossem recuperadas. Era como se ela não tivesse passado algum.

No convento, ajudava em todas as tarefas: lavava, passava, cozinhava, cuidava das crianças do abrigo que era agregado ao prédio onde moravam. Era uma pessoa muito dedicada e que sempre trazia um belo sorriso em seu rosto. Fazia valer sua permanência ali com muito trabalho. Quase todas as irmãs gostavam dela, mas havia as exceções, afinal é difícil agradar a todos. Nem Cristo agradou, quem dirá Anete, que não sabia nem se esse era seu verdadeiro nome.

Algumas das irmãs não gostavam dela por inveja, sentimento esse que elas não deveriam cultivar. Essa inveja vinha do fato de Anete ser muito apegada a Madre e esse carinho ser recíproco. A Madre tinha muito amor por ela, e estava sempre lhe dando atenção. Irmã Teresa era uma mulher feliz, que havia dedicado quase oito décadas da sua vida ao serviço religioso, tinha uma pele branca toda enrugada pelo tempo. Andava devagar, devido a fortes dores em seus ossos já cansados, mas nunca deixou seus afazeres. Apesar dos seus problemas de saúde, tinha pulso firme e colocava ordem naquele lugar. Era um convento organizado, bonito e bem cuidado.

Ele ficava afastado do centro, em uma típica cidade do interior do Kansas. Era uma rua larga. O prédio era antigo, tinha uma fachada branca e um grande portão de ferro. Ao passar pelo portão, havia uma sala com uma imagem de Santa Clara na entrada, dando as boas vindas a todos que chegavam. Sempre havia rosas naquele altar, que as irmãs trocavam todos os dias. As paredes eram pintadas em um tom claro de bege, quase amarelo. A cozinha era grande, pois ali era preparada a alimentação, não só das irmãs, mas também das crianças que elas cuidavam. Havia quartos no térreo e no primeiro andar, além de um escritório onde a Madre cuidava dos assuntos do convento, e uma capela para as orações.

O dia começava cedo naquele lugar. Às cinco horas as irmãs já estavam de pé. A primeira coisa a ser feita era reunir-se para as orações, logo depois iam preparar o café da manhã que seria dado às muitas crianças dali.

Anete seguia o mesmo cronograma das freiras. Acordava no mesmo horário, cumpria as mesmas tarefas, e às vezes trabalhava até um pouco mais, quando dava o azar de encontrar com alguma freira que não gostava dela supervisionando os afazeres.

Ela não usava hábito, mas era como se fosse uma das Irmãs. Parecia que tinha nascido pra aquela vida. Não sentia nenhuma falta das coisas que o mundo proporcionava lá fora: festas, bebidas, sexo. Nada parecia existir, e talvez não existisse mesmo, afinal se ela realmente não se recordava de nada, não poderia sentir falta.

Aquele foi um dia cansativo pra Anete. A noite já havia chegado e o sono já batia a sua porta, ela cumpriu sua rotina. Tomou banho, escovou os dentes, deitou e dormiu sem nenhuma dificuldade. Dormiu e sonhou. Um sonho tão claro, como a realidade que ela acabara de viver.

Um homem estava diante dela. Ele vestia terno e gravata, ambos pretos, tinha o cabelo bem cortado, olhos castanhos, pele morena. Era alto e a olhava nos olhos fixamente.

– Você acha que vai conseguir se esconder de mim por muito tempo? – perguntou ele.

– Por que me esconderia de você? – perguntou Anete.

– Não se faça de desentendida – disse ele em tom de raiva – você acha que sou idiota?

– Por que me esconderia de você? – perguntou ela de novo.

– Eu vou te encontrar. Não importa onde você esteja. Não importa quem esteja te protegendo. Eu vou te encontrar – falou ele bravo, aproximando-se dela – E quando eu te encontrar…

– Quando me encontrar o quê? – Perguntou ela, assustada com aquela conversa. Afinal, quem era aquele homem? O que queria com ela?

Em um piscar de olhos o homem estava diante dela, com as mãos em seu pescoço, levantando-a.

– Me… lar…ga – dizia Anete sem fôlego

– Eu vou te encontrar, e isso vai ser pouco perto do que vou fazer com você – disse ele, apertando o pescoço dela com cada vez mais força.

Anete acordou de repente passando as mãos no pescoço, com dificuldade de respirar e os olhos vermelhos, como se realmente estivesse sendo asfixiada.

Mais uma vez, foi um daqueles sonhos que parecem reais, com uma única diferença: dessa vez, seu pescoço estava levemente avermelhando, como se alguém o tivesse apertado.

Ela tentava se acalmar, enquanto se livrava daquela sensação ruim, e aos poucos foi olhando ao redor e viu que as outras três camas existentes no seu quarto estavam vazias, o que era algo estranho naquele horário. A Irmã Justine chegava à porta neste momento, com os olhos cheios de lágrimas, a procura de Anete.

– Venha – disse ela com a voz embargada – levante-se.

– Ir aonde? – perguntou Anete sem entender o que estava acontecendo.

– Venha Anete – disse Justine com um tom de tristeza e pressa – Venha antes que seja tarde, ela quer falar com você antes de partir.

Anete não fez mais perguntas, simplesmente levantou e seguiu Justine. Passando pelos corredores ela foi encontrando outras Irmãs. Todas com os olhos tristes. Ela não conseguiu entender o que estava acontecendo. Ainda estava com as marcas daquele sonho em sua cabeça. Mas, aos poucos, foi começando a compreender. Estava indo ao quarto da Madre. Aquelas lágrimas tinham algo a ver com a Superiora. O que teria acontecido a ela? Algo estava errado. Anete apressou o passo, para descobrir o que se passava com aquela que havia sido uma mãe para ela, desde que sofrera o acidente.

Se aproximando do quarto passou por mais freiras, todas chorosas. Uma mulher desconhecida, de pele branca, cabelos escuros e vestido preto na altura dos joelhos, estava na porta, olhando para dentro do quarto. Anete passou por ela apressada, nem pensou em cumprimenta-la devido a angustia que apertava seu coração. Ao entrar ela se deparou com Teresa em sua cama, respirando com dificuldade e dando um singelo sorriso quando sentiu que ela se aproximava.

– Que bom que você esta aqui minha filha – falou a Madre com a voz cansada – tive medo de não conseguir falar com você antes de ir.

– Ir para onde mãe? – disse Anete segurando as mãos de Teresa, sentando ao seu lado na cama – a senhora vai ficar bem, vai passar por essa, eu vou cuidar da senhora, nós vamos cuidar.

– Ah minha filha – respondeu ela em um tom ainda mais baixo – chegou a minha hora, todos temos que ir um dia, e meu dia chegou. Mas, quero que você saiba uma coisa antes de ir – disse ela parando pra respirar por um minuto.

– Não fale mais, não se canse, a senhora precisa descansar, vai ficar tudo bem, eu sei que vai.

– Quero que você saiba filha, que não ficará desamparada, que não precisa se preocupar, tudo vai dar certo…

A voz da Madre foi falhando, a essa altura ela já estava falando diretamente no ouvido de Anete, de forma que apenas ela lhe escutava, baixinho e sem fôlego, e sem se quer continuar o que dizia, sua voz silenciou.

– Madre – disse Anete, percebendo que algo havia acontecido – Fale comigo, responda, a senhora não pode ir agora, não pode me deixar.

Teresa tinha partido, havia cumprido sua missão na Terra e enfim tinha feito a passagem. Ela sabia que sua hora havia chegado, sabia que tinha feito tudo o que podia pelo bem de todos, e que um bom lugar lhe aguardava.

Aquela foi uma longa noite, todas as freiras velavam a Madre, se despediam dela com cânticos, chorando, dando um último adeus àquela que foi uma mãe para todas elas. Não havia quem não gostasse dela, aquele seu jeito carinhoso, mas sem perder a autoridade, aquela forma de ser, de tratar o próximo, de agir perante todos. Ninguém esqueceria a Madre, ela conquistara todas as pessoas que a conheceram.

A noite passou e chegou o momento do sepultamento.

Havia um lugar especial onde bispos, padres e freiras eram enterrados. Um lugar com um lindo jardim que ficava próximo à igreja.

Muita gente compareceu ao enterro, desde membros da Igreja, a muitos membros da comunidade. Justine estava o tempo todo ao lado de Anete, próximo a elas também estava a Irmã Quitéria, com seus lindos olhos azuis, e a Irmã Luzia, com sua pele negra, linda e macia. Elas abraçavam Anete e todas se confortavam naquele momento tão difícil.

De longe, por trás de uma árvore, alguém apenas olhava tudo que acontecia. Era um homem, tinha o cabelo liso na altura das orelhas, olhos claros, pele branca, um tipo atlético e bonito. Ele apenas olhava e fitava Anete com um ar de curiosidade, como quem havia encontrado algo que procurava há muito tempo.

Ele parecia não conseguir disfarçar o interesse e logo Justine percebeu aquele homem, que de longe não parava de olhar para a moça.

– Eu acho que tem alguém te admirando de longe – disse ela.

– O quê? – disse Anete chorando.

– Ali – disse Justine, mostrando discretamente com a cabeça o local onde o homem estava – aquele rapaz não para de olhar para cá.

– Eu também percebi – disse a irmã Quitéria – ele não tira os olhos de você. Será que ele te conhece?

– Como pode me conhecer? – disse Anete olhando na direção do homem e percebendo que ele também olhava para ela – Nem eu sei quem sou.

– Acho que você deveria ir até lá – disse Justine – talvez ele possa saber alguma coisa sobre você. Está te olhando de forma tão estranha.

– Ou talvez, ele apenas tenha gostado dela – Disse a irmã Quitéria.

– Isso não é hora nem lugar pra arrumar paquera – respondeu Anete – Não me importa quem é ele, se me conhece ou o que quer que seja.

E levantando a cabeça novamente na direção que estava o homem, ela percebeu que ele havia sumido. Depois daquele momento ele não foi mais visto por ali.

Todos foram para suas casas, as irmãs para o convento, onde descansaram e tentaram superar aquele dia de alguma forma.

Anete não saiu de seu quarto, onde permaneceu a noite inteira agarrada ao seu travesseiro e chorando, lembrando-se de tudo que aquela santa mulher havia feito por ela. Foi um milagre que a madre tenha a encontrado em meio a tudo que aconteceu. Ela estava inconsciente no meio da rua. Quem a atropelou não parou pra prestar socorro. Afinal, acreditava-se ter sido um atropelamento. Quem cuidaria de uma desconhecida como Teresa cuidou? Quem levaria ao hospital, compraria remédios? Daria comida, roupas limpas, um lar? Que pessoa faria isso por alguém que nunca tinha visto na vida?

Todas essas lembranças vinham à cabeça de Anete, e cada vez ela chorava mais.

Três dias já haviam passado, e a nova Madre Superiora era esperada. Normalmente essas coisas demoravam um pouco, mas devido à elevada idade de Teresa, já estavam providenciando alguém para lhe substituir.

Madre Guilhermina chegou. Com um olhar frio e os punhos de aço, ela foi recebida com um sorriso fraco pelas freiras, que ainda estavam abaladas com a morte da Madre Teresa. Ela não gostou da recepção fria. Por sinal, tão fria quanto ela e suas novas regras.  Com sua pele alva e já enrugada, ela decretou as novas ordens:

*Horário para dormir antecipado, e consequentemente acordar mais cedo também;

*Mais um momento para as orações;

*Ampliação da horta, o que acarreta mais trabalho. A partir daquele momento todos os legumes deveriam ser cultivados nas terras do convento.

Uma lista enorme de trabalhos e mudanças, vistas com espanto por todas. E por fim, algo pelo qual ninguém esperava.

Apenas as freiras poderiam morar no convento, de maneira bem clara, Anete não poderia permanecer ali. Tinha que se retirar e procurar outro lugar.

– Mas, para que não pensem que não tenho coração – disse Madre Guilhermina a Anete, diante de todas – te darei duas semanas para conseguir um lugar para ficar.

– Mas Madre – disse Justine – a Anete é da família, ela nos ajuda em todos os afazeres, a Madre Teresa tinha muito carinho por ela, é como uma irmã para nós.

– Primeiro – disse a Nova Madre – A irmã Teresa se foi, e agora, quem dá as ordens aqui sou eu. Segundo, Anete não é freira, portanto, não poderá continuar conosco. Duas semanas Anete, nem mais um dia.

Um silêncio ecoou por toda sala. Todas se entreolharam com surpresa. Até aquelas que não gostavam da presença de Anete no convento, sentiram o choque da novidade e ficaram comovidas com a situação.

– Sim senhora – respondeu Anete – irei o mais rápido possível.

– Eu sei que irá– disse a Madre.

– Mas isso não pode ser assim… – começou a falar Justine

– Deixa para lá Justine – disse Anete puxando o braço da Irmã e impedindo que ela se prejudicasse por defendê-la.

A Madre fez de conta que não escutou e continuou com seus passos firmes retirando-se daquele ambiente.

Todas se dirigiram a seus quartos. Enquanto Anete pensava apenas no que aconteceria com sua vida dali em diante. Pra onde ela iria? Não conhecia nada fora dos muros daquele convento, seu lar pelo que parecia toda sua vida. Não conhecia ninguém fora dali.

Pela janela ela pôde ver que a noite chegara. Mas, não queria dormir naquele momento, tinha medo dos seus sonhos. Porque eles pareciam tão reais? Quem era o homem que a perseguia quase todas as noites? Porque sempre parecia que não sobreviveria a mais uma noite, a mais um encontro com o perigo que lhe alcançava durante o sono? E seu futuro, teria ela um futuro a partir de agora?

Continua…

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