Barbie, Oppenheimer e Killers of the Flower Moon têm campanha milionária como vantagem na corrida para indicações ao Oscar

Todo ano eu faço várias matérias sobre os filmes que estão na corrida do Oscar e, todo ano, é normal que eu discorde de alguns candidatos a indicações, ou seja, os filmes prediletos dos membros da Academia, de alguns jornalistas e, mesmo do público em geral. Mas, devo confessar, que essa temporada de premiações está osso pra mim.

Eu NÃO gostei de nenhum dos três filmes que, provavelmente, vão receber um número recorde de indicações ao Oscar, nas principais categorias.

Compartilho minha opinião sincera sobre “Barbie”, “Oppenheimer” e “Killers of the Flower Moon”, lembrando que, independente dos meus comentários sobre os filmes, tenho um profundo respeito por TODOS os profissionais envolvidos, especialmente quem trabalha nos bastidores e não recebe o reconhecimento que merece, assim como respeito os fãs, que são aqueles que realmente importam em qualquer projeto relacionado ao entretenimento.

Barbie

Eu gosto bastante da Greta Gerwig (assisti a absolutamente todos os seus filmes, tenho um carinho especial por “Lady Bird”) e do elenco, em geral. Adorei a música de Dua Lipa, de quem também sou super fã, mas, sinceramente, achei “Barbie” um filme de avião, uma ótima “Sessão da Tarde”, que teve uma campanha milionária promovida pela Warner, que explorou muito bem a pegada feminista.

O discurso da personagem interpretada pela America Ferrera (que sim é uma excelente atriz) não me convenceu. Não pela atuação dela, mas pelo texto em si, pois acho que seria muito mais leal se a mulher branca, que atende todos os padrões de beleza da sociedade, nesse caso interpretada pela Margo Robbie, fizesse o discurso para a bela mulher latina. Ou seja, se fosse uma cena onde Margo Robbie levantasse a moral da America Ferrera teria feito mais sentido pra mim. Saí com a dúvida que me persegue sempre: Por que as latinas (e pretas, indígenas, muçulmanas) têm que sempre consolar as brancas? Existe uma mensagem subliminar na cena que me incomodou.

Eu estava super animada pra assistir “Barbie”, mas quando soube que a campanha de marketing do filme custou mais que a produção, fiquei com a pulga atrás da orelha. E o filme, que arrecadou bilhões mundialmente, privilegiou financeiramente quem mais criticou, os “Kens”, homens brancos e milionários que lideram os estúdios e a Mattel, que está conseguindo vender ainda mais bonecas.

E pra finalizar, se é um filme feminista, deve representar todas as mulheres, não vi uma Barbie indígena, muçulmana, poucas asiáticas, latinas de pele escura (brown, como chamamos nos EUA), ou seja, foi divertido, arrecadou milhões, mas com uma representação feminina limitada. Em suma, pra mim, foi um tiro que saiu pela culatra em muitos sentidos.

Oppenheimer

Christopher Nolan, roteirista e diretor de “Oppenheimer”, é uma simpatia. Ele participou de uma papo depois da sessão que assisti do filme. Nolan também foi um dos roteiristas e diretor de um dos meus filmes prediletos, “Memento”. Inegável o seu talento.

Será que já não temos guerras e armas demais no mundo para levar milhões de pessoas ao cinema pra assistir o cidadão ser condecorado pelo presidente dos EUA? Ele não teve nenhuma responsabilidade na bomba que os EUA lançaram em Hiroshima, mas qual é o objetivo de transformar isso em uma obra cinematográfica pra massa num momento tão sensível da humanidade? Não curti. Assim como em “Barbie”, a mensagem subliminar que fica gravada no inconsciente coletivo é péssima.

Killers of the Flower Moon

Agora, o filme mais difícil de engolir pra mim, o que mais me dói, é o filme do Scorsese. Muitos Osage não curtiram e muitos indígenas expressaram seu desagrado nas redes sociais e foram massacrados porque o cineasta é um “gênio”. Uma falta de respeito. Eu queria ver se fosse um filme, digamos, sobre italianos (por exemplo), dirigido por um não italiano, que ofendesse a comunidade, se alguém ia se opor quando os membros da família italiana criticassem o “gênio”.

Enfim, eu sei que o filme foi adaptado de um livro mas, pelo amor do senhor, quando que um estúdio/streamer vai contratar indígenas para escrever e adaptar roteiros que “explorem” as tribos?

O mais curioso é que Martin Scorsese e Eric Roth estão na frente na corrida do Oscar na categoria roteiro adaptado. Que vergonhoso isso acontecer em 2023. Sem contar que, mesmo curtindo filmes longos, achei esse chatíssimo. E, diferente de “Barbie” e “Oppenheimer”, a mensagem desse filme está descarada mesmo. Mais uma vez homens brancos escrevem sobre a família que não é deles.

Obviamente, Lily Gladstone está brilhante, mas isso porque a atriz é brilhante. O mérito do seu desempenho é única e exclusivamente dela. Quem assistiu “Reservation Dogs”, por exemplo, sabe que ela pode aparecer por 5 minutos que rouba a cena de qualquer maneira.

Em suma, o que esses três filmes têm em comum são nomes de peso no elenco e direção e uma campanha de lançamento milionária, que levaram milhões de pessoas ao cinema pelo mundo afora.

Fato que foi excelente para os estúdios que estão por trás deles e para os produtores do Oscar que estão esperançosos por ter três sucessos de bilheteria entre os indicados, pois isso significa uma maior audiência para a cerimônia e um maior poder de barganha com os anunciantes que também vão pagar milhões para que seus comerciais sejam exibidos nos intervalos.

Enfim, como já mencionei, respeito os envolvidos nos projetos e os fãs das obras, mas, pra mim, vai ser bem difícil engolir a alegria dos estúdios que massacraram a indústria do entretenimento em 2023. Por conta do meu trabalho eu não pago cinema, e, só gasto meu dinheiro suado com filmes indies, pois são os que não têm orçamento para fazer uma campanha de marketing e, consequentemente, nunca vão ter a chance de fazer o sucesso de bilheteria dos grandes filmes de estúdio e streamers, como os mencionados nesse post.

Além disso, foram os indies e os profissionais envolvidos neles, que mais sofreram por conta das greves dos roteiristas e atores esse ano.

E, falando em filmes independentes e marcantes, compartilho aqui não só críticas, mas três dicas imperdíveis e inspiradoras de obras que não tiveram campanhas de promoção milionárias, mas merecem a nossa atenção:

Se você e seus filhos gostaram de “Barbie”, aproveitem e assistam “Frybread Face and Me”, que acompanha as férias de dois primos, pré-adolescentes, na casa da avó numa reserva indígena no Arizona. Divertido, emocionante, delicioso. Disponível na Netflix.

Na matéria, contamos sobre nosso papo com o diretor e elenco:

Se você curte conhecer personalidades como Oppenheimer, vai se encantar com “Rustin”, que conta a história de um dos mártires do movimento dos direitos civis nos EUA. O ator Colman Domingo, que interpreta o protagonista, também é um dos favoritos a receber uma indicação ao Oscar. O filme também está disponível na Netflix. Veja nosso encontro com Colman, na matéria:

E, para quem curtiu “Killers of the Flower Moon”, que tal assistir a um filme excelente, premiado em Cannes, sobre a jornada de dois jovens na reserva indígena onde vivem, rodado no local, escrito e produzido por indígenas e com um elenco indígena pra lá de talentoso? “War Pony” está disponível para aluguel em várias plataformas digitais. Confira mais detalhes e nosso surto ao conhecer a diretora, Riley Keoug, e o protagonista Jojo Bapteise Whiting, na matéria:

 

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