“East Of Wall” é uma obra-prima. Um daqueles filmes que ficam com a gente por muito tempo, depois que saímos do cinema.
Fiquei impressionada quando soube que é o filme de estreia da diretora Kate Beecroft, mas não me surpreendeu saber que ganhou o prêmio de melhor filme, eleito pelo público, no prestigiado Sundance Film Festival, onde estreou em janeiro desse ano.

“East Of Wall” é um retrato autêntico da resiliência feminina no “Novo Oeste”, inspirado e interpretado pelas mulheres e meninas que o vivem. Ambientada nas Terras Ermas da Dakota do Sul, Tabatha, uma jovem fazendeira rebelde que resgata e revende cavalos, precisa tomar decisões difíceis para lidar com sua família, a incerteza financeira e o luto não resolvido, ao mesmo tempo em que oferece refúgio a um grupo de adolescentes da vizinhança.


Protagonizado por Tabatha, Porshia Zimiga e o grupo de adolescentes e moradores da região que vivem a história, também conta com atores profissionais, como Jennifer Ehle e Scoot McNairy, que amo profundamente desde a série “Halt & Catch Fire”, uma das minhas favoritas de todos os tempos, em que interpreta Gordon Clark.

A roteirista e diretora Kate Beecroft morou 3 anos com Tabatha e sua família em South Dakota para escrever o roteiro e rodar o filme.
Eu assisti “East Of Wall” em uma sessão especial em LA, que contou com a presença de Kate Beecroft, Tabatha e Porshia Zimiga e do ator Scoot McNairy.

Na conversa, a gente entende mais como a relação entre Kate e a comunidade, assim como com os atores, foi fundamental para o belíssimo, profundo, emocionante, resultado que vimos na telona. O filme é lindo em todos os aspectos, roteiro, direção, fotografia, trilha, edição e, especialmente, a performance dos não atores e atores. A história foi contada de forma tão autêntica que impressiona.
Compartilho os destaques do papo, que foi tão especial quanto o filme:
Kate (diretora):
Como conheceu a East Wall:
“Eu estava fazendo uma viagem de carro e errei o caminho em South Dakota. Assim, sem querer, eu fui parar no rancho de Tabatha. Nunca poderia imaginar que pegar a rua errada fosse me levar para a maior aventura da minha vida.”
Sobre a experiência:
“Eu fiquei fascinada pela vida delas, mas para contar a história eu tinha que fazer parte dela. Com a autorização da Tabatha, eu me mudei pra lá e morei com ela e sua família por 3 anos. Eu queria fazer um filme autêntico, que contasse a história dessa comunidade pelo ponto de vista deles e, para isso, eu tinha que conhecê-los a fundo, conviver com eles. O filme nasceu dessa minha imersão, não poderia ter sido feito de outra forma, pois não seria esse filme que vocês acabaram de assistir. Foi uma experiência incrível pra mim também, em muitos aspectos mudou a minha vida como pessoa e, claro, foi um marco pra minha carreira de cineasta.”
Porque não fazer um documentário:
“Muita gente me perguntou porque eu não optei por fazer um documentário, já que eu estava vivendo na comunidade. Mas eu não queria reportar a história delas apenas, eu queria ter a liberdade criativa, queria que a Tabatha, a Porshia, e todos os não atores, mesmo sendo eles mesmos, e usando seus próprios nomes, também atuassem e vivessem outras histórias dentro de suas próprias vidas. Eu queria que eles se divertissem com isso.”
A participação de atores profissionais:
“Eu fiquei muito lisonjeada quando a Jennifer (Ehle) e o Scoot toparam participar do projeto logo que eu mandei o roteiro e conversei com eles sobre o conceito. Foi ótimo ter eles no set, porque, como atores profissionais e muito experientes, eles ajudaram o grupo a expandir seus talentos, eles se integraram muito bem na comunidade, foi uma troca muito verdadeira, foi especial contar com a colaboração deles, que abraçaram o filme e toparam todos os perrengues comigo.” Risos
A recepção do filme:
“Eu saí dessa experiência com amigos da vida, me sinto verdadeiramente parte da família da Tabatha. E fico feliz demais do filme ter sido recebido tão bem. Foi feito com paixão e esse retorno positivo é uma grande recompensa por todos os nossos esforços e uma homenagem a essa comunidade maravilhosa que me acolheu tão bem.”

Tabatha:
Sobre a relação com a Kate:
“Quando conhecemos Kate, perdida em South Dakota – risos – a gente de cara sabia que ela era uma pessoa do bem. Quando ela voltou para nos visitar e falou sobre o projeto de morar com a gente e contar a nossa história, eu achei até engraçado, mas confiei nela desde o início. E ela não nos decepcionou. Foi incrível comigo, com a minha família e a nossa comunidade. Ela foi muito respeitosa e se integrou muito bem a nossa rotina. Nos ajudou muito no rancho também. Ela trabalhava, cuidava dos cavalos, de tudo. E foi por confiarmos tanto nela que ficamos a vontade para fazer o filme. Tudo aconteceu por causa dela e pela amizade que construímos.”
Sobre ver a sua história, sua família e sua comunidade na tela do cinema:
“Foi bem emocionante, porque ao mesmo tempo que era a nossa história, não era, a gente também estava atuando. Tinha um roteiro e a gente seguia bastante, mas também tinha espaço pra improvisar. O processo foi longo e trabalhoso, mas também foi divertido.”

Como foi trabalhar com a Jennifer e o Scoot:
“Eles também se integraram à comunidade. Nos ensinaram muito e foram bem pacientes com a gente como atores e a gente também ensinou muitas coisas sobre cavalos e nosso universo pra eles. Sem contar que a Jennifer está perfeita como minha mãe, ela incorporou mesmo ela. E minha mãe ficou feliz.”

Porshia:
Sobre sua experiência nesse projeto:
“Como a minha mãe disse, a Katie é o motivo que a gente topou fazer esse filme e se sentiu confortável. Tudo porque ela passou a fazer parte da nossa família, de verdade, e a gente sabia que ela honraria a nossa história, como aconteceu. A gente adorou o resultado.”
Sobre a estreia do filme e a resposta do público no Sundance Film Festival:
“A gente viu o filme pela primeira vez com o público, no Sundance, foi muito emocionante e, ainda mais chocante de ver a reação das pessoas, como elas se identificaram com a gente, mesmo morando em lugares diferentes. Recebemos muito carinho de todos e ficamos surpresos com a reação positiva, mas orgulhosos da Kate e da gente, porque o filme ficou mesmo muito bonito e muito autêntico. Foi uma experiência inesquecível.”

Sobre seguir a carreira de atriz:
“Eu gostei muito de fazer o filme e do resultado, mas não sei ainda o que vai acontecer. Estou aqui em LA agora, promovendo o filme, conhecendo pessoas, quem sabe. De qualquer forma, estou aberta, mas vai depender muito das oportunidades que surgirem. Trabalhar com a Kate foi muito especial, teria que ser algo parecido.”

Scoot
Como foi fazer parte dessa projeto não convencional:
“Eu gosto muito de fazer parte de projetos diferentes, especialmente se eu nunca fiz nada parecido antes, como foi o caso. Eu achei o roteiro excelente, conversei com a Kate e achei o máximo o fato dela ter imergido na comunidade por tanto tempo, o que fez toda a diferença no processo, pois tinha uma intimidade nas relações que foi essencial pro filme, a gente sente isso assistindo, assim como sentiu esse clima no set. Foi uma experiência interessante e inovadora pra mim.”
Kate complementa:
“Foi meio caótico também” risos.Scoot:
“Mas foi um caos organizado, tinha roteiro, a gente sabia como seria o dia, mas tinham surpresas, cavalos, o clima, um grupo de adolescentes, ainda assim, a gente conseguiu rodar o filme, muito graças a você que foi uma capitã de primeira viagem talentosa. Impressionante que esse foi seu primeiro filme. Estou orgulhoso de ter participado!”
Sobre trabalhar com não atores:
“Eu adoro trabalhar com não atores, tem uma leveza que atores, quando estão fazendo isso por muito tempo, perdem um pouco. A troca é mais real. Pra mim, é sempre um aprendizado. E, nesse caso, com a garotada, os cavalos, foi divertido também.
Eu surtei ao ver Scoot pessoalmente porque sou fanática e obcecada por “Halt & Catch Fire” e por seu personagem, Gordon Clark, um dos quatro protagonistas, até hoje. Vou compartilhar a matéria que escrevi sobre a série nesse post, onde explico porque é tão brilhante. Aliás, está entre os 50 melhores seriados do século, na lista do The Hollywood Reporter.
Mas, sem dúvidas, “East Of Wall” foi mais um trabalho de Scoot que me impactou muito. Eu cresci em um ambiente, em um país, e uma estrutura familiar e financeira totalmente diferentes da vivida pelos personagens do filme, ainda assim eu me identifiquei em vários momentos com as dores, delícias, os conflitos e as vitórias daquele grupo de pessoas que estavam interpretando uma versão deles mesmos, de uma forma humana e, ao mesmo tempo, tão poética. Belíssimo trabalho!

Parabéns à Kate Beecroft pela metodologia adotada em seu primeiro filme, uma inspiração para jovens e veteranos cineastas que se comprometem a contar uma história que eles não têm lugar de fala, de uma forma autêntica.
O filme que foi adquirido pela Sony Classics, estão em cartaz nos cinemas nos EUA.
Saiba porque “Halt & Catch Fire” é uma das melhores séries do século até agora:
