Guac: Show mostra o luto de um pai transformado em ativismo pelo desarmamento nos EUA

Eu já assisti muitos filmes, peças de teatros, shows e séries que marcaram a minha vida, me inspiraram, me emocionaram, mas nada como a apresentação de Manuel Oliver, pai de Joaquin “Guac” Oliver, uma das vítimas do tiroteio na escola em Parkland, Florida, em 2018.

No show, Manuel faz uma bela homenagem ao filho usando a arte, sua voz e a criatividade em uma produção bem caprichada, para reforçar a campanha de desarmamento, da qual é um conhecido líder, nos EUA.

 

 

Tive o privilégio de ver “Guac” no Kirk Douglas Theater, em Culver City. E, tão impactante como o show em si, é a exposição no foyer do teatro.

Além de termos a chance de conhecer melhor Joaquin “Guac” Oliver através de fotos, vídeos e até dos seus tweets, as instalações mostram as consequências devastadoras da violência armada, que é a causa número 1 de morte de crianças e adolescentes, no país.

 

 

 

As estrelas pretas no chão, que imitam as estrelas na Calçada da Fama, em Hollywood, mostram o número de vítimas que morreram e foram feridas em tiroteios nas escolas, universidades, boates, shows, igrejas, estabelecimentos comerciais pelo país afora ao longo dos anos.

 

 

Isso graças à facilidade que permite qualquer pessoa entrar em uma loja e comprar armas, seja um revólver, uma metralhadora, ou um fuzil AR-15. Joaquin era um ativista e líder da campanha de desarmamento. No show, Manuel mostra os cartazes feitos pelo jovem que participava de manifestações na sua comunidade a favor da controle da venda de armas e maior segurança nas escolas.

Para Manuel, compartilhar a experiência em detalhes da sua relação com seu filho, da história da sua família e do fatídico dia 14 de fevereiro de 2018, é uma maneira de seguir o legado de seu filho, “eu não sou ativista, Joaquin era ativista e estou aqui para continuar a sua luta”.

 

 

Na apresentação, Manuel, que não é um ator, mas um artista plástico, usa suas habilidades e desenha um painel do filho durante o show. Conta sobre a jornada de sua família, que deixou a Venezuela quando a ditadura começou no país e veio para os EUA em busca de uma vida melhor e mais segura para os filhos, “vejam a ironia”, disse ele, que fala inglês com sotaque do qual se orgulha (eu também me orgulho muito do meu sotaque em inglês!)

Manuel relembra o amor do filho pelos esportes e por rock’n roll, Joaquin era fã do guitarrista Slash, do Guns N’ Roses, e celebra com muita energia, música, alto astral e humor a vida do filho que era também seu melhor amigo.

 

 

Ao mesmo tempo, Manuel faz um relato sincero sobre a sua dor, a revolta, o luto, e conta, em detalhes, sobre a véspera e o dia que perdeu de uma forma estúpida seu filho, que foi atingido por 4 tiros de AR-15 e estava irreconhecível. Manuel fala também da forma protocolar que as autoridades lhe deram a notícia que Joaquin estava entre as vítimas fatais do tiroteio e, do que parece óbvio mas é mais profundo do que a gente imagina, como a morte do filho foi um divisor de águas, na sua vida, de sua esposa Patrícia (que estava presente no teatro) e sua filha.

Manuel compartilha outra ironia do destino, a cerimônia da cidadania estadunidense da família Oliver aconteceu dia 20 de janeiro de 2016, o dia da posse do primeiro mandado de DT. Relembra também o dia que foi detido na manifestação que fez próximo ao jardins da Casa Branca e a conversa que teve com o então Presidente Joe Biden no salão Oval.

Ao contrário de todas as peças de teatro que assistimos, Manuel pede que a plateia fotografe e faça vídeos em alguns momentos do show, assim como sugere que a gente ligue ou mande mensagem pra quem a gente ama, “pode ser a última vez”.

 

 

Parece deprimente, mas não é. Na verdade é um momento bonito no teatro, uma experiência que eu nunca tinha vivido antes, e, embora eu seja uma pessoa que valorize o presente, os singelos momentos do dia a dia, fato que não declaro meu amor para minha família e amigos com a frequência necessária. Manuel me lembrou como isso é importante.

Infelizmente, tiroteios em massa são corriqueiros nos EUA, mas, por algum motivo, que eu não sabia até ver “Guac”, esse em Parkland me marcou profundamente. Eu lembro que eu estava no trabalho, festejando com meus companheiros de trampo e minha chefe o Valentine’s Day, dia 14 de fevereiro, quando vimos a noticia do tiroteio na escola Marjory Stoneman Douglas High School, que matou 17 pessoas e feriu outras 18. A nossa farra acabou no escritório. Aquele Valentine’s Day ficou marcado pela dor.

No ano seguinte, quando fui cobrir o Tribeca Film Festival, em NY, eu fui convidada para uma sessão especial do documentário sobre o tiroteio na escola em Parkland, onde “conheci” Manuel e Patrícia, que participam e contam a história de Guac, assim como ouvi depoimentos das famílias de outras vítimas e dos sobreviventes, incluindo Vitória, estudante e namorada de Joaquin. Esse doc me marcou profundamente e nunca esqueci da família Oliver.

 

 

Quando vi nas redes sociais que Manuel estaria em cartaz em “Guac” em LA, não hesitei e fui ver de perto sua declaração de amor pelo seu filho e pelo país que escolheu viver, porque a campanha de desarmamento, ao contrário do que muitos podem dizer, é uma forma de proteger a população e amar os EUA.

Muitas outras famílias foram vítimas dessa tragédia que acontece em escolas, universidades, cinemas, shows, lojas, prédios comerciais, diariamente. Muita gente inocente morre, outras tantas são feridas e o trauma dos sobreviventes é pro resto da vida, assim como o luto das famílias.

Manuel e sua esposa Patrícia decidiram enfrentar a dor abraçando a luta do desarmamento. Os pais de “Guac” abriram uma fundação, escreveram um livro, e através da arte promovem vários eventos, palestras e produziram esse show com o objetivo de conscientizar a população, especialmente os jovens, dos perigos da violência armada.

 

 

O show é mais alto astral do que eu imaginava e, claro, toca o coração profundamente. De todas as histórias que Manuel compartilhou, o episódio dos girassóis, me emocionou em particular.

Na véspera do Valentine’s Day, em 2018, Manuel e Joaquin voltavam pra casa do treino de basquete quando Joaquin pediu pra o pai parar porque ele queria comprar flores pra dar a namorada no dia seguinte. Ele escolheu girassóis, as flores prediletas da Vitória.

Joaquin deu os girassóis para Vitória antes do massacre começar, ela guardou essa última lembrança do namorado. Carinhosamente, Vitória colocou as pétalas do buquê que ganhou de Joaquin em cordões e presenteou Manuel e Patrícia, que usam o acessório que é um símbolo da luz de seu filho.

No cenário de “Guac” estão objetos e desenhos que representam a vida de Joaquin e a família Oliver. Um vaso de girassóis está no palco e as flores são projetadas no telão, como parte da iluminação.

 

 

Eu acredito mais em sincronicidade do que em coincidências. Girassol também é minha flor predileta e tem um significado importantíssimo na minha relação com a minha mãe, que via características semelhantes entre a minha personalidade e a flor.

Quando ouvi esse relato no show, me emocionei ao perceber que o girassol é tão marcante na história de “Guac” e sua família como é na minha história e na minha família. E senti que mamãe, que agora mora em seu jardim de girassóis com Joaquin, me chamou a atenção para que eu fosse nesse evento que marcou a minha vida pra sempre.

 

 

“Guac” está em cartaz no Kirk Douglas Theater até o dia 4 de novembro. Se você estiver em LA e tiver oportunidade, vá assistir.

O show de amor de Manuel Oliver para o seu filho é de uma emoção indescritível, assim como a exposição nos educa e a causa nos inspira a seguir o exemplo de Joaquin e continuar sua lutar pelo desarmamento e por mais segurança nas escolas.

 

Garanta seu ingresso:

 

 

Vale assistir ao documentário:

 

 

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