Mudanças em uma jornada de 365 dias levam a uma parada para reflexão

Hoje faz 1 ano que saí do apartamento onde eu morava em Los Angeles. Depois de 8 anos vivendo no mesmo endereço em Beverly Hills, eu senti a necessidade de dar uma guinada na minha jornada. A minha inquieta alma cigana, a mesma que me motivou a ir morar no exterior, estava ansiosa pra viver outras experiências pelos EUA afora.

Como dizem por aí, cuidado com o que você deseja pois o universo de fato nos escuta e proporciona grandes aventuras, que incluem dias desafiadores, mas, ao mesmo tempo, novos amigos, histórias divertidas, noites inesquecíveis.

A minha jornada nesses últimos 365 dias foi intensa, como não sou de planejar o futuro, eu não tinha ideia de onde o destino iria me levar, mas confesso para vocês que jamais imaginei que 1 ano depois de deixar a Burton Way, depois de ter dormido em 15 camas e sofás, em 5 diferentes cidades nos EUA, LA, NY, San Diego, El Paso e Austin e duas camas no Brasil, eu estaria escrevendo esse post do meu antigo quarto da casa dos meus pais, no Rio de Janeiro, com o mundo vivendo o isolamento social por conta de um novo vírus, o Covid-19, um inimigo invisível que mudou a vida, a rotina e os planos de toda a humanidade, que nunca mais vai ser a mesma.

 

Ao sair do meu apartamento, eu passei alguns meses organizando a minha trajetória na Cidade dos Anjos. Neste período, eu contei com a generosidade das amigas Flavia Viera, Raquel Zambon e Mariana Knabben que me cederam camas e sofás em seus lares.

Parti para Austin e me hospedei em 2 Airbnbs e 2 hotéis até voltar a ter minha própria cama no meu novo apartamento, na capital do Texas. Assim, bati o recorde de ter dormido em 8 camas, em diferentes moradas, entre abril e setembro.

Isso, sem contar com as visitas que fiz ao sofá da casa de Mariana Benevello no Brooklyn, em NY, ao hostel pra curtir a San Diego Comic Con, a dois hotéis no Texas, um pra prestigiar o ATX TV Festival e o outro foi beira de estrada, em El Paso, quando coloquei o pé na estrada e levei a minha mudança de LA para Austin.

Assim, me despedi do ano de 2019 tendo passado por 12 sofás e camas. Até que, em fevereiro de 2020 fui recebida no meu décimo terceiro sofá por Noah Centineo, meu melhor amigo felino, em Hollywood, onde por acaso também reside Larissa Alves. Na semana que passei em Los Angeles, não só celebrei o Oscar do filme coreano, “Parasita”, na categoria melhor filme, como encontrei Pedro Almodóvar, matei a saudade dos amigos e dos meus points prediletos da cidade que foi meu lar por 1 década na Califórnia. Ainda estava lá quando soube que teria que ir ao Brasil em caráter emergencial, por conta de uma cirurgia da minha mãe. Tudo correu muito bem e, como bônus, passei o Carnaval no Rio de Janeiro. Depois de 12 anos, pude aproveitar a data que sempre senti mais saudades, vivendo na terra estrangeira.

Há menos de 2 meses atrás, o coronavirus era uma realidade distante. Nna China, o inimigo já dava sinais de seu perigo, mas o mundo ainda ignorava a gravidade de sua existência. Mamãe se recuperou e eu voltei para os EUA e o projeto de retornar ao Brasil no meio do ano foi antecipado repentinamente por conta da pandemia que, do dia para noite, tomou conta dos noticiários e nos forçou a tomar decisões radiciais. Pra mim, foi simples. Nunca tive dúvidas que se o apocalipse acontecesse, eu viria para a Cidade Maravilhosa, onde cresci e onde estão as minhas pessoas.

Como viajei já no meio do caos, ao chegar no Rio tive que fazer quarentena na minha, décima segunda cama, no apartamento de uns amigos em Copacabana. Passados os 15 dias, pude vir pra casa dos meus pais, e sentada na cama de número 15, relembro a caminhada percorrida pela minha alma cigana desde o dia que a minha jornada na Burton Way chegou ao fim.

Meu apartamento em Bev Hills foi mais que um simples lugar onde morei, foi palco de festas, hangs, risadas, lágrimas, chegadas e partidas. Foi um ponto de encontro de gente de várias nacionalidades que adotaram LA como casa, e me emociono ao lembrar que também foi um porto seguro, um lar pra quem estava só e queria companhia na Páscoa, Natal, Thanksgiving, Ano Novo e até no seu aniversário. Tudo era motivo pra comemorar. Hoje, em pleno isolamento social, são as lembranças dos momentos inesquecíveis na Burton que alegram meu coração, assim como as lembranças de todas as casas pelas quais passei, do carinho com que fui recebida pelos amigos, dos hotéis e hostels onde me hospedei pra curtir eventos e viver momentos importantes da minha história. As boas recordações alimentam a minha alma.

Carreguei muita mala pra lá e pra cá no último ano e fico aliviada ao perceber que o fato de ter acumulado muito pouca coisa na vida, só joga ao meu favor.

O fato de eu não curtir nenhum tipo de planejamento também cabe muito bem ao momento. Estou em paz. Aliás, ser uma pessoa do Hang (aquela que gosta de fazer nada, ou fazer muito como ler, assistir filmes, seriados, novela e BBB) também são diversão garantida nas horas de quarentena.

Para ser sincera com vocês, essas férias que estou dando a minha alma cigana, de volta por um tempo prolongado a minha cama original, no quarto onde sonhei a minha mudança para os EUA, onde sonhei as viagens que faria, onde sonhei os ídolos que conheceria e as aventuras que viveria, eram mais necessárias que eu poderia imaginar.

De volta ao aconchego do lar dos meus pais, eu me orgulho da jornada que percorri até aqui, onde priorizei as atitudes, falei menos, agi muito, tirei o “se” do meu dicionário, troquei o ter pelo ser.

Sou uma pessoa muito diferente da que saiu deste quarto em 2009 rumo a um mundo desconhecido. Sou muito diferente da pessoa que deixou o apartamento em LA há 1 ano atrás. Mas como diz o poeta, a mudança é a única certeza que a gente tem, com isso mal posso esperar pra ver que rumo o mundo vai tomar depois da pandemia e onde a minha alma cigana vai me levar.

Até lá eu gasto a poupança de memórias inesquecíveis que colecionei ao longo da minha existência pra viver feliz essa quarentena.

Compartilhando essa história, espero distraí-los e, mais que isso, incentiva-los a resgatar as suas boas recordações para atravessar em paz este momento delicado da nossa história.

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