No aniversário de Shai Woodley: Em entrevista, sua incrível mãe fala sobre seu projeto social

Por: Claudia Ciuffo

Para comemorar o aniversário de Shai Woodley, uma das minhas atrizes e pessoas favoritas em Hollywood, publicamos hoje a transcrição do meu bate-papo com Lori Woodley, mãe de Shai. O foco de nossa conversa, durante o almoço num restaurante em Los Angeles, foi o trabalho da “All It Takes”, fundação sem fins lucrativos fundada por Lori e Shai há alguns anos. Nos acampamentos promovidos pela “All It Takes”, a vida de adolescentes de diversas escolas participantes ganha um novo rumo. Ao aprenderem a descobrir suas próprias paixões e a respeitarem o próximo, jovens de classes sociais, raça, religião, turmas e culturas diferentes, aprendem também importância de honrar e respeitar o ser humano.

E se você é fã de Shai, depois de conferir o que Lori tem a dizer, vai ter certeza que a expressão “filho de peixe, peixinho é” se encaixa perfeitamente a essa dupla que tenho o prazer de conhecer e com quem tive o prazer de compartilhar a minha própria história, os objetivos do Hollywood é Aqui e até meu amor por John Green.

Feliz Aniversário, Shai! Você cresceu inspirada por uma mulher sensacional e está aproveitando a oportunidade e a visibilidade que tem para espalhar boas mensagens e atitudes pelo mundo afora. Que seu novo ano seja lindo como você e gentil como sua mãe que fez questão até de pagar meu almoço e dividir comigo a sua paixão pelas crianças, pelos filhos e pela vida.

CC: Quando eu comecei o Hollywood é Aqui eu fiquei preocupada que o site se tornasse algo superficial, com foco em glamour e cobertura de tapete vermelho apenas…

LW: O que as pessoas estão usando versus o que elas estão fazendo?

CC: Exatamente. Eu não queria que isso acontecesse de jeito nenhum, então eu optei por nunca falar sobre a vida íntima das celebridades. Eu escolho pautas significativas pros nossos leitores jovens. John Green, por exemplo, é uma excelente pauta.

LW: Incrível. Você conseguiu entrevistar o John?

CC: Sim!

LW: Que legal!

CC: Foi o dia mais feliz da minha vida. Eu li todos os livros dele e sou super fã do John. Eu até mandei os livros dele para a minha mãe – ela mora no Brasil. Eu disse a ela que ela tinha que ler aqueles livros, porque ele é tão incrível. A minha mãe é uma sobrevivente de câncer e o primeiro livro que li dele foi “A Culpa é das Estrelas”… Enfim, e foi assim que eu conheci a Shai, através de todos estes projetos, e sou super fã dela também. Eu gosto das entrevistas dela, eu a encontrei algumas vezes.

LW: Ah, você a encontrou?

CC: Sim, em alguns eventos. Não é porque ela é sua filha que estou falando isso não, mas acho a Shai um modelo a ser seguido pelos jovens, porque nem todo mundo em Hollywood fala coisas relevantes e interessantes como ela.

LW: Certo. Isso é verdade! Nem todo mundo em Hollywood foca no mundo externo, a maioria foca só em si mesmo. E quando uma pessoa foca 100% em si mesma é muito difícil fazer a diferença no mundo.

CC: Pois é, e é muito fácil para os jovens no Brasil ficarem deslumbrados com o glamour que eles vêem nas redes sociais, na TV, no cinema…

LW: Imagino que eles acabam encarando o que vêem na TV e no cinema como realidade.

CC: Pois é, por isso que eu acho importante escrever sobre projetos relevantes como a “All It Takes”, fundação sem fins lucrativos que você e Shai fundaram juntas. Aliás, eu li no site que seu filho Tanner trabalha com vocês também, bacana que é um projeto familiar. Você trabalhou como conselheira escolar muitos anos, certo?

LW: Sim, eu fui uma conselheira escolar por 25 anos. Eu trabalhei no ensino fundamental, do jardim de infância até a 8ª série. Primordialmente, 6ª, 7ª e 8ª séries. E nestas séries, como conselheira, você faz um trabalho preventivo. Muitas coisas não são preventivas, são crises de momento, mas uma grande parte da minha paixão é trabalhar com as pessoas para que elas encontrem suas próprias paixões. Enquanto elas crescem e encontram suas paixões, elas também se sentem confiantes, inteiras e completas, e também e neste processo de amadurecimento, aprendem a cuidar umas das outras. Eu acho que nós coexistimos. Não somos independentes do tipo “sou apenas eu”, sabe? Não somos só nós mesmos… Não somos só uma família, não somos só vizinhos, somos uma vizinhança. Não somos só uma sala de aula, somos uma escola. Não somos somente um país, somos parte de um continente e não somos só um continente, somos parte do mundo. Então, estamos todos conectados e eu acho que é muito importante que encontremos os dons que Deus nos deu, sejam eles quais forem… Para nós pais e importante ajudar os nossos filhos a encontrá-los… Deixar que eles os encontrem e, depois, incentivá-los e deixar que eles voem. E, no meio tempo, ensiná-los a prestar atenção àquilo que os cerca, prestar atenção na marca que eles deixam no universo. Nós deixamos uma marca no mundo, mas também deixamos uma marca no coração de cada pessoa que encontramos. Nós fazemos expressões de tristeza, brigamos com alguém, nós xingamos, cortamos alguém no trânsito porque não estamos prestando atenção em nosso mundo. Então, essa é uma grande paixão que tenho: fazer com que cuidemos de nós mesmos e com que cuidemos uns dos outros.

CC: Isso é incrível! E você coloca em pratica toda a sua experiência e as suas idéias através do trabalho que realiza na “All It Takes”. Eu li que vocês organizam acampamentos com diversas atividades, onde os participantes (alunos de diversas escolas) são incentivados a encontrarem e desenvolverem as suas paixões e a se relacionarem uns com os outros, deixando de lado as diferenças, sejam elas quais forem, e focando em conhecer a história de cada um, antes de julgar. É sensacional! As crianças vão ao acampamento por um final de semana, certo?

LW: Ou durante a semana. Depende do tipo de acampamento, se eles fazem o acampamento da 7ª série ou o acampamento Legacy.

CC: E, depois, do acampamento, você volta para as escolas para dar continuidade ao que foi ensinado lá?

LW: Sim. Nós damos aos funcionários da escola um material para que eles mesmos possam fazer um acompanhamento dos resultados no comportamento da garotada depois do acampamento e, de vez em quando, eu vou, os reuno para lembrá-los da importância da união… É muito bonitos vê-los juntos, olho ao redor e vejo todos propagando a mesma mensagem: “ posso ficar ansioso por escolher ser a pessoa que vai fazer algo pra impedir as mensagens ruins que estão circulando, posso ficar nervoso por ser a pessoa que diga a alguém para parar de ser maldoso, mas quando eu olho em volta a minha volta e vejo cinquenta de nós, propagando a mesma mensagem, eu me sinto mais corajoso e poderoso porque há solidariedade e união. Então, isso dá às crianças um forte senso de comunidade e a habilidade de fazer a diferença. É incrível.

CC: A escola contata você ou você contata… Como isso funciona?

LW: Eu trabalhei em algumas escolas, outras nos encontraram. Há alguns anos, eu deixei a educação pública após 25 anos para trabalhar na “All It Takes” em período integral, porque eu quero que milhares e milhares de crianças passem por este acampamento. E é caro, então, estamos focando no levantamento de recursos financeiros para dar continuidade a este trabalho, pois é necessário.

CC: E você faz isso todo final de semana?

LW: Não, não. No passado, fazíamos um por ano e, depois, dois por ano. Neste ano, já fizemos três e vamos continuar. Nós não temos nenhum acampamento de verão, a maioria acontece durante o ano escolar. Porque o que nós queremos é fazer com que as crianças retornem para as escolas e mudem o que acontece nas escolas delas, sabe? Porque as nossas escolas são legais, mas as crianças são mas nas escolas. Nós fazemos com que eles sejam legais. Bom, nós não os tornamos legais…

CC: No fundo, no fundo, eles são legais.

LW: Nós os lembramos quem eles são. Nós os lembramos quão especiais eles são. Nós os lembramos e mostramos isso pra eles e, então, eles podem aceitar que você é especial, você é especial e eles são especiais… Aquelas crianças que eu costumava atormentar, elas são especiais e elas têm uma historia de vida da qual eu não sei nada, então eu provavelmente deveria parar de julgá-las. Nas avaliações do acampamento, as crianças dizem: “Eu vou parar de julgar porque você nunca sabe o caminho pelo qual as pessoas andaram”.

CC: Sério?

LW: Sim. Eu tenho avaliações incríveis.

CC: Isso é lindo!

LW: Mais de 90% das nossas crianças têm um impacto de mudança de vida significativo. Noventa por cento, e isso dentro de uma pesquisa com mais de 500 crianças.

CC: Isso é glamoroso.

LW: Esse tipo de mensagem positiva que pessoas famosas deveriam propagar … É aí que a oportunidade está para pessoas que têm uma boa condição financeira, têm tempo, e têm uma visibilidade. Se eles são uma figura pública de qualquer tipo: músicos, artistas, atores, políticos, tanto faz. Quando você tem a oportunidade de se conhecido pelo grande público, use essa oportunidade pra fazer o bem! Por isso que nós somos tão sortudos de ter uma chance de dizer “Ei, vamos mudar vidas”. Porque nós temos crianças que estão se matando em números recorde, nós temos crianças que estão atirando em suas escolas… Nenhuma escola está imune. Nós temos crianças que matando umas às outras… Nós temos crianças que estão cometendo bullying umas com as outras. Nós temos uma epidemia de ansiedade, depressão e outros diagnósticos de desordem de humor em crianças. Crianças que estão completamente desconectadas umas das outras e da humanidade… E o mundo tecnológico ajudou isso a se tornar um problema ainda maior, e ele não vai ser resolvido magicamente. Então temos que encontrar um equilíbrio entre ignorar isto e olhar alguém no olho sabendo que o problema ainda está lá, sabe? Quando dizemos às crianças para largar os telefones, primeiro, elas reclamam… Ah, meu Deus, e começam a se contorcer. E aí, quando o final de semana acaba, eles quase não querem os telefones de volta.

CC: Eu concordo. Então, no acampamento, as crianças não usam seus celulares?

LW: Não. Eles têm que abrir mão deles e, se eles não abrirem, nós encontramos os telefones e tiramos deles pelo final de semana inteiro.

CC: Sério?

LW: E eles sabem que isso vai acontecer quando eles entram. Então, não é uma surpresa.

CC: Eles encaram bem a ordem de não usar o celular?

LW: Eles não acreditam na gente. Alguns não acreditam, então, quando tiramos os telefones, eles dizem “Oh, você estava falando sério?”. Sim, você sabia disso, você assinou um documento que dizia que você não poderia usar seu celular.

CC: Ah, eles assinam um documento?

LW: Sim, assinam.

CC: E qual a idade deles?

LW: Sétima série é cerca de 12 anos.

CC: Ah, 12… Então, vocês trabalham com pré-adolescentes?

LW: No acampamento Legacy, são crianças da sexta, sétima e oitava série, 11 a 15. E o acampamento da sétima série são todos os alunos de sétima série que, geralmente, têm 12 ou 13.

CC: E por que você tem um programa especial para os alunos de sétima série? Como surgiu essa ideia?

LW: O acampamento Legacy traz as crianças de todas as classes sociais, você tem ricos, pobres, todo mundo. Quando o acampamento termina em três dias, eles não se vêem como rico ou pobre, legal ou não legal. Eles se vêem como colegas e se amam, todos amam uns aos outros. É tão bonito. Já o acampamento da sétima série, nós desenvolvemos e criamos este ano porque, quando você faz o Legacy, você só tem cerca de 30 crianças de uma escola. E aquelas 30 crianças voltam e podem ter algum impacto, mas quando 30 crianças voltam para uma escola de 500, ou 200, eles ainda são a minoria. Ainda funciona, ainda é lindo e nós ainda temos o Legacy. Mas o pensamento do acampamento da sétima série é que são todos os alunos de sétima série de uma mesma escola do ensino médio que vem ao acampamento e, aí, aprendem a olhar… Não apenas aprendem, mas querem deixar o acampamento e olhar uns pelos outros ao invés de perseguir uns aos outros. Nós paramos a depressão, o suicídio, a ansiedade, comportamentos de bullying, comportamentos de bullying online. Isso é o que já vimos. As escolas que vieram e mais escolas que sabem sobre aquelas que vieram querem se inscrever para o próximo ano. E é um impacto, porque está tirando um dia escolar… São três dias, mas eles não se importam.

CC: Eles não se importam? A escola está ok com isso?

LW: As escolas estão descobrindo como financiar isso. Nós não conseguimos levantar o dinheiro para tudo… Nós financiamos, desta vez, sem custo, mas agora temos uma escala dependendo da área e o nível de renda, o status social econômico da comunidade. E eles estão encontrando um meio de financiar. As escolas não têm dinheiro, mas, quando eles dizem “vamos encontrar um jeito”… Nós vamos fazer arrecadação de fundos, vamos pedir aos pais uma quantia, e importante pra eles porque a escola tem visto o resultado, na mudança da cultura e no comportamento dos alunos.

CC: E como os pais das crianças vêem o acampamento?

LW: Eles amam! Nós tivemos 185 crianças no acampamento… Nenhum pai reclamou, nenhum! Tivemos 185 crianças por três dias, sem reclamações. Porque as crianças amaram.

CC: Que ótimo! Você planeja ou já está trabalhando em um projeto para os pais também?

LW: Estou trabalhando nisso.

CC: Porque isso também e muito importante.

LW: Estou trabalhando em algumas aulas, talvez webinars ou vídeos… Tipo, olhe, o seu filho acabou de voltar do acampamento, por favor, assista e lembre o que ele fez. Quando eles te dizem que não podem fazer a própria cama, eu prometo, eles podem… Quando eles dizem que precisam de sua ajuda para fazer o dever de casa, eles não precisam. Saibam que eles conseguem fazer isso. Saibam que eles precisam do seu apoio, mas não da sua ajuda. Então, sim, estou no processo de ter um programa para os pais que complemente os outros programas que ja oferecemos, porque a escola está de acordo, a criança está de acordo, aí, nos fazemos com que os pais estejam de acordo e tudo se une para que a criança não tenha nenhuma chance de fazer algo diferente de florescer.

CC: Você sente falta de trabalhar como conselheira escolar?

LW: Às vezes, eu sinto. Tudo isso é novo para mim e aconselhamento era algo que eu sabia como fazer. Coordenar acampamentos e escrever o programa, eu sei como fazer. Mas eu não sei nada sobre ser uma Diretora Executiva, então eu estou aprendendo bastante. Eu não tenho facilidade para pedir dinheiro, então, ter o meu time à minha volta pra me ajudar na parte administrativa, que eu não tenho experiência, e imprescindível… Porque eu posso montar o programa, eu posso falar a respeito, eu posso convencer todo mundo a dizer “meu filho tem que ir”, mas o meu fantástico time cuida da parte administrativa, afinal todos nós temos habilidades diferentes e isso é bonito.

CC: Hoje vivemos numa sociedade focada no consumo. As pessoas dão mais valor a ter do que a ser. O ideal é encontrarmos um meio termo entre esses dois pólos. Creio que o seu trabalho tem o foco no ser. O que você pensa a respeito?

LW: Eu sempre digo que temos que balancear. Ter a certeza de que estamos dando pelo menos metade do que temos, seja a nossa energia, nossas finanças, o nosso tempo ou talento. Você é um programador de computador excelente? Ofereça-se para fazer isso! Escolha uma instituição de caridade, um grupo de pessoas que você pode ajudar e faça aquele trabalho de graça, sabe? E isso é tudo que precisamos para transmitir mensagens globais. Para as nossas mensagens globais, tudo o que precisamos é que uma pessoa preencha as lacunas. Tudo o que precisamos para fazer do mundo um lugar melhor, em minha opinião, é sermos bons o tempo todo. Ou sorrir, ou construir uma igreja na África, construir poços de água, limpar os oceanos e as praias, abrigos de animais… Todos nós temos diferentes paixões. E, se vivermos nossas paixões, nós estamos felizes. Se estamos dando algo de volta a humanidade e fazendo a diferença para os outros, o mundo é um lugar melhor. E você se sente bem em doar.

CC: É lindo. Eu amei as quatro palavras que você usou no seu website – honra, respeito, compaixão e aceitação – porque isto é tão importante e, às vezes, nós nos esquecemos.

LW: Está faltando. E não só crianças, adultos também.
CC: Especialmente adultos. Eu recebo muitos e-mails de crianças que estão passando por um momento difícil, talvez porque algo esteja acontecendo em suas famílias ou escolas. Eles estão se cortando, E, para mim, é muito difícil aconselha-los às vezes… Eu vivo aqui e os e-mails vêm do Brasil, de cidades pequenas, do meio da Amazônia, sabe? E eu tento convencê-los a falar com os pais, mas, às vezes, não é fácil para eles fazer isso. E eu digo a eles para falarem com e escola e, às vezes, a escola não dá nenhum suporte. Então, é por isso que é tão importante ter algo assim. As escolas não estão preparadas às vezes.

LW: Geralmente, sim. Nem sempre preparadas. Às vezes, é realmente um distúrbio mental que necessita de atenção médica profissional. Às vezes, é só um sentimento de que você não pode aguentar a pressão e não consegue se encaixar. Às vezes, é apenas uma reação dramática porque a resiliência não está lá, sabe? Ok, alguém te ofendeu… Eu não estou dizendo que isso está ok, não está ok. Mas nós também vamos cruzar com isso sempre, durante toda a nossa vida. Então, nossas crianças precisam ser, tipo: “Oh, eu tenho o meu valor e a minha importância. Eu não sei porque você disse isso, mas você não pode me machucar”. A resiliência, a força interior para dizer “Obrigado por compartilhar. Eu não sei por que você compartilhou isso, mas ok” e seguir em frente.

CC: As pessoas ficam magoadas por tudo esses dias. Tipo, você me magoa só porque você diz isso… É a vida!

LW: Exatamente. É assim que eu me sinto. E não porque eu ache que é ok…

CC: Não, claro que não.

LW: Mas vai acontecer e não vai ter alguém lá para consertar ou te proteger todas as vezes que você for magoado.

CC: Nossos pais não vão estar lá todo o tempo pra nos salvar, certo?

LW: Certo. Eles não vão estar e nem devem estar. Nosso trabalho como pais é preparar nossos filhos para viverem suas vidas, serem pessoas do bem, alegres e generosas. Eu chamo de trabalho dos 18 aos 82. Se nossos filhos têm 100 anos… Vamos torcer para que todas as crianças, as crianças de todo mundo cheguem aos 100 anos. Nós temos 18 anos, destes anos, para prepará-los, para fazer um bom trabalho com os outros 82% de seus anos. Primordialmente, o que estamos fazendo… Socialmente, nós estamos criando muitas crianças que não sabem cuidar de si mesmas. Então, quando eles fazem 18 anos e a lei afirma que eles são maiores de idade, eles ainda estão no sofá de seus pais ate os 25 e 30, e saindo da escola, ou não gostam daquele trabalho, ou não é dinheiro suficiente e, então, eles não estão trabalhando. Ou estão conseguindo empregos e não sabem como deixar seu celular de lado, sabe? Eles não mantêm trabalhos porque eles são demitidos se chegarem atrasados todos os dias e não entendem o motivo. E eles ficam bravos porque os professores lhes dão um zero quando eles entregam um trabalho atrasado… Os professores não se importam que eles dormiram até mais tarde, ou dormiram demais, ou fizeram festa demais. Os professores ditam as regras. Temos crianças que só tiravam nota A no colegial e que tiveram toda a ajuda de seus pais, e eles não sabem lidar com o professor que dá zero porque você não fez nada certo. E saiba que este professor vai receber uma ligação de um pai, ou o seu empregador vai receber a ligação de um pai.

CC: Por que você acha que isso acontece o tempo todo? Por que estas crianças são tão frágeis?

LW: Pode ser que eu escreva algo a respeito um dia, mas eu acho que é multifacetado. Eu acho que no mundo da Psicologia e da criação de crianças tem um chamado para darmos uma voz às crianças, deixar que eles tenham opiniões sobre a forma com que estão sendo criadas. Nós não tivemos uma opinião!

CC: Não, de jeito nenhum.

LW: Certo? Se nós tivéssemos, poderia não ter terminado bem.

CC: Verdade!

LW: Então, nós queremos que nossas crianças tenham uma voz, mas eu acho que nós não ensinamos para eles o que isso significa. Então, nós dizemos “Eu quero que você tenha uma voz” e quando o seu filho de quatro anos está te olhando feio e dizendo “Eu gosto disso e eu quero”, nós só ficamos olhando para ele e quase não fazemos nada. Nós quase nos rendemos, sem forças, tipo, o que eu faço com isso? Então, eu acho que é nosso trabalho dar a eles uma voz, mas ensinar também a eles algumas coisas sobre isso: número um, como verbalizar apropriadamente as frustrações. Isso é treinamento! Por exemplo, “fique fora da rua”, nós nunca pensamos duas vezes sobre isso. Nós os ensinamos a ficar fora das ruas, a manter suas mãos longe das chamas do fogão. Mas o mesmo tipo de medida de segurança é que as nossas crianças sejam capazes de falar adequadamente com outros humanos, com pessoas em posições de autoridade. Então, nós temos que ensiná-los. Você pode dizer “Eu me sinto frustrado sobre isso” e, então, a segunda parte disso é… Dê a eles a oportunidade de ter uma voz, ensine-os como ter uma voz e, também ensine que certamente, ter uma voz não significa conseguir tudo o que você quer. Ter uma voz e dizer “eu quero isso” ou “eu não quero isso”, ou “eu não vou fazer isso”, ou “eu vou fazer isso”, ou o que quer que seja a demanda, não é igual a conseguir o que você quer. E nós realmente temos que aprender a aceitar o não e as frustrações, e aprender que a frustração não é o final do mundo. Os pais precisam dizer não.

CC: Mais do que sim.

LW: Sim! Porque É bom para todas as crianças. Elas precisam dos limites. Eu realmente acho que os pais querem fazer a coisa certa e, quando eu falo sobre isso nos meus seminários para pais, todos eles concordam. Eu sei que os pais amam seus filhos e que querem o melhor para eles. Eu sei que, quando eu digo isso, faz sentido para a maioria das pessoas. Mas fazer isso parece ser muito difícil, então, eu encorajo os pais a começarem cedo. Quanto mais velhas as crianças ficam, mais difícil é de mudar. Então, você tem que ensiná-los a ter uma voz adequada e como aceitar não apropriadamente para seguir em frente. Ter uma voz não significa conseguir tudo o que você quer. Alguns chefes não querem nem ouvir o que você tem a dizer. Mas alguns chefes são, tipo, “Ah, claro, o que você está pensando?” e eles vão pensar a respeito, mas vão dizer: “Obrigado por compartilhar, mas não vamos fazer isso”. Nós temos que aprender a ficar ok com isso e não deixar essa situação estragar o seu dia inteiro porque o seu chefe não te ouviu. Mas se, como pais, nós não dermos a oportunidade para que nossos filhos se sintam desapontados e sigam em frente, teremos problemas com eles. Que é meio que o que está acontecendo.

CC: Vejo isso especialmente na indústria do entretenimento… Eu trabalho nesta indústria desde que estava no Brasil e as pessoas se irritam em um set de cinema ou de televisão só porque o diretor colocou algum limite, impôs uma regra. Eu não estou dizendo que o diretor é Deus, porque ele não é Deus… mas ele é o chefe.

LW: Ele ainda é o chefe!

CC: E é só um trabalho. Os atores muitas vezes se acham os deuses acima do bem e do mal…

LW: Sim. Sempre me surpreendeu como as pessoas se comportam num set de gravação… Eu ensinei a Shai que o diretor era o chefe, e sempre fiquei pasma como os atores chegam atrasados, ou porque ainda não saíram da cama, ou não porque ainda não estão prontos. E eu sempre pensei, mas: “Espere, este é o trabalho deles”. As pessoas estão dando um salário a eles. Se eu estivesse trabalhando no Walmart, eu não poderia chegar a hora que eu quisesse.

CC: Claro que não.

LW: Mas é a mesma coisa e nem todo mundo faz isso. O que aconteceria se fosse com a gente é que estaríamos de pé, e estaríamos cansados, mas estaríamos lá esperando na van. Mas, o problema com o entretenimento é que não existem consequências para este tipo de comportamento. Então, isso gera comportamentos narcisistas porque ninguém diz: “Este trabalho não é mais seu, estamos te substituindo”. Ou vamos diminuir seu pagamento, ou algo assim.

CC: Nada acontece.

LW: Não. A produção tem que custos extras exorbitantes se eles atrasam, mas ninguém toma nenhuma atitude, o que não faz sentido para mim.

CC: Sim, eu sei. Nem me diga. Acontece em toda parte, mas especialmente nesta indústria… Talvez seja porque eu trabalho nesta indústria, mas, às vezes, é tipo “Você está brincando comigo?”. Quero dizer, você é só um ser humano falando com outro ser humano. E eu sou uma jornalista que acaba indo em muitas coletivas de imprensa e, às vezes, eu não consigo acreditar que eles nos tratam mal porque são famosos. Quero dizer, estamos todos lá trabalhando.

LW: E o seu trabalho ajuda o trabalho deles, você está promovendo o filme, série, livro deles, para que eles continuem a ter um emprego. É tudo um ciclo. Todo mundo precisa de todo mundo que precisa de alguém. É necessário o time completo para fazer a roda girar. Então, o meu comprometimento é realmente fazer o que eu posso para dar suporte para que outras pessoas vejam isso. O valor dos outros, a importância dos outros, os dons dos outros e como estes dons são uma parte do todo.

CC: Um pequeno pedaço…

LW: Somos todos um pequeno pedaço, sim.

CC: Isso é bom, porque é uma mensagem inspiradora pra todo mundo no mundo. Nós podemos mudar nossas comunidades se quisermos. Não é fácil, mas é possível.

LW: Eu digo às crianças todo o tempo: difícil não é impossível. A Shailene e o Tanner não gostavam de mim quando eu dizia esta frase como mãe, mas é verdade: difícil não é impossível. Até o que eu estou fazendo é difícil, é difícil arrecadar o dinheiro para fazer isso. Mas não é impossível e eu sou focada, eu sei que estamos salvando vidas. E eu penso: “Ok, é difícil, mas não é impossível. Nós encontraremos em algum lugar”.

CC: As pessoas dizem muitas coisas, mas elas não tomam atitude, ou … elas têm atitudes contrárias ao que estão dizendo.

LW: Sim. Eles não estão notando a mudança nas reações e é sobre isso que falamos com as crianças. Mesmo que você faça uma escolha ruim – eu não gosto da palavra ruim, então… Mesmo que você faça uma escolha que não tenha o resultado que você queria, pelo menos, seja dono de sua escolha. Seja dono da escolha. “Sim, eu escolhi enviar aquela mensagem maldosa e agora estou com problemas por causa disso”. Eu fiz isso, ao invés de “eles começaram” e todas aquelas coisas, todo aquele apontamento de dedos que acontece.

CC: Você foi mãe super jovem, e, como falamos, uma das maiores dificuldades dos pais e dizer não aos seus filhos. Como você aprendeu a dizer não para os seus filhos?

LW: Eu nem sempre dizia não. Eu aprendi muito como mãe, aprendi muito como conselheira escolar, como treinadora, como facilitadora. E eu nem sempre dizia não. Tem momentos em que olho para trás e penso que deveria ter dito não com mais frequência. Nós fazemos o melhor que podemos, mas nem sempre vamos fazer certo. O que é certo? O mesmo o que é errado… Para mim, errado é só machucar as pessoas.

(Garçonete traz a conta).

LW: A conta é minha, por favor. Eu aprecio que você queira falar sobre o que estamos fazendo e o impacto que estamos tendo. Eu te agradeço por isso.

CC: Muito obrigada! É importante. Eu gostaria de conhecer mais gente como você.

LW: Bom, eu estou treinando muita gente como eu, então…

Para mais informações sobre a All It Takes, acesse:

https://allittakes.org/

 

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