Série A Friend of the Family traz como tema central o abuso infantil baseado em um caso real

Essa matéria contém spoilers e aborda abuso infantil podendo causar gatilhos.

O mundo já tem tantos problemas que eu sei que muita gente não curte assistir séries sobre abuso infantil, especialmente quando são baseadas em fatos.

Ao mesmo tempo, é necessário contar uma história de pedofilia e abuso infantil, pois falar no assunto é a solução para educar a população, chamar atenção para os sinais e evitar que as estatísticas sobre casos como o da família Broberg continuem aumentando pelo mundo afora.

A premissa de “A Friend of the Family” é baseada nos eventos reais vividos pela família Broberg, em que a filha Jan foi sequestrada diversas vezes, durante anos, por um amigo da família carismático, porém, manipulador e obcecado. Os Broberg eram uma família dedicada, devotos à fé e a sua comunidade, sem preparo para lidar com as táticas mirabolantes e sorrateiras de seu vizinho, homem que explorou a vulnerabilidade da família. Para piorar, as armações do amigo da família levaram os Broberg a entrarem em conflito, principalmente, fazendo com que a filha ficasse contra os pais. Mãe dedicada de três filhas, Mary Ann Broberg (Anna Paquin) percebe tarde demais que talvez tenha sido um erro aproximar a família do vizinho Robert Berchtold (Jake Lacy), um homem de negócios que aparenta ser um ótimo pai e mórmon. A série busca contar a história de como a família sobreviveu e teve sua história marcada para sempre. Fonte: https://www.adorocinema.com/series/serie-31329/

Como colocou muito bem Jan Broberg, que estava presente no Deadline Contenders, evento que antencede as indicações ao Emmy Awards, e compartilhou a trajetória de sua família, “precisamos denunciar o abuso infantil. Por isso que eu e minha mãe fizemos questão de contar a história da nossa família. Na época, muita gente perguntou se não tínhamos vergonha de compartilhar nossos erros e fragilidades, mas é assim que a gente transforma a sociedade. Por isso, escrevemos um livro, fizemos um documentário, demos entrevistas e agora temos a série, que atinge um público ainda maior. Os números de abuso infantil, provocados por uma pessoa próxima da família, são inacreditáveis, 1 a cada 25 pessoas sofre abuso na infantil de um parente, gente conhecida, um suposto amigo. Tenho certeza que vários de vocês sentados nessa plateia passaram por experiências horrendas, como eu. Mas só vamos mudar esses números se denunciarmos e, pra isso, temos que falar incansavelmente do tema. Dividir as nossas experiências, não só nos ajuda na recuperação dos traumas, como chama a atenção para situações que outras pessoas podem estar passando nesse momento. E elas podem se atentar e procurar as autoridades e as ONGs que podem ajudá-los a sair da situação, que também não é fácil e a cuidar da saúde física e mental”.

    

Quando perguntado porque aceitou fazer a série, o ator Colin Hanks, que interpreta Bob Broberg, pai de Jan, foi bem sincero, “olha, a primeira vez que me fizeram o convite eu neguei. Achei o material muito pesado, questionei até porque fazer uma série sobre um assunto que já tinha sido abordado em livro e no documentário. Mas me pediram pra pensar um pouco e fui pesquisar mais, conversei com Jan e li os scripts que são excelentes, fortes, mas respeitosos à história e à dor dessa família. Aí eu conclui o que Jan mencionou sobre a importância de se falar sobre esse assunto para efetivamente tentarmos chamar a atenção das vítimas e das autoridades. Hoje eu acho que esse foi um dos projetos mais importantes da minha carreira”.

A atriz Lip Tipton, que na série é Gail Berchtold, deu um depoimento emocionado sobre porque queria fazer parte deste elenco “eu sou uma das 25 pessoas que sofreram abusos na infância, por isso eu senti que precisava fazer a série. Ao mesmo tempo que detonou vários gatilhos, foi uma forma de consolo, me ajudou a cicatrizar algumas feridas. Eu também tive pais maravilhosos, carinhosos, presentes, mas, infelizmente, esse tipo de situação acontece em famílias bacanas, como a minha e a da Jan. Por isso que muitas vezes é difícil enxergar e se torna imprescindível mostrar a realidade que acontece dentro da sua família honesta e religiosa, como um tio, vizinho, ou amigo próximo pode estar abusando da sua filha (o) como no caso da série, e ninguém vê”.

Em meio aos aplausos, Jan parabenizou os produtores e o elenco, especialmente pela forma como escolheram mostrar o abuso na série: “você não vai ver o abuso físico em si, não é necessário ver nenhuma cena para entender o que está acontecendo, o que aconteceu, está tudo no diálogo, nos olhares, nas entrelinhas”.

E o criador, produtor e roteirista, Nick Antosca, complementa, “o tema já era muito pesado para as atrizes que interpretaram Jan na infância e na adolescência. Não sentimos necessidade de cenas explícitas, já que o ato acontece em consequência de toda a manipulação psicológica, que estava no script. A saúde mental da nossa McKenna Grace (Jan adolescente) e da Hendrix Yancey (Jan criança) era mais importante pra gente, tínhamos toda uma estrutura no set, inclusive terapeuta disponível pra elas e para todo o elenco. E acho que atingimos o nosso objetivo da forma como contamos a história. Jan aprovou e isso que nos importa.”

Eu confesso que não foi fácil assistir essa minissérie. Mas eu concordo que precisamos falar do assunto e consumir esse tipo de material para nos proteger e proteger as pessoas que amamos. É quase um projeto didático com toda a dor e o sofrimento da jornada dessa família que se repete em muitas famílias. Chorei, senti raiva dos pais de Jan, percebi que já estava sendo manipulada, como eles, pelo pedófilo (mesmo sabendo detalhes da história) e me peguei refletindo de verdade, pela primeira vez, do porque essas situações acontecem e como é fácil nos levarmos por elas. Se eu quase caí vendo pela TV, imagina na vida real.

Fiquei tão impactada que assisti ao documentário, que também indico a vocês:

Fiquei muito impactada, mas é assim que saímos da zona de conforto, nos conscientizando dos riscos e nos preparando para enfrentar os desafios. Série imperdível, o mundo tem problemas, mas as soluções estão no compartilhamento das experiências, acredito que é aí que a gente aprende e evolui.

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