“Gully”: Filme escancara uma Los Angeles muito além do glamour do tapete vermelho de Hollywood

O Tribeca Film Festival nasceu para levantar o astral dos nova-iorquinos, logo após o ataque às Torres Gêmeas, que ficavam localizadas no sul de Manhattan, vizinhas ao bairro de Tribeca. Daí o festival acontecer no local que foi o mais atingido pela maior tragédia da história do país.

Eu faço a cobertura jornalística de vários festivais de cinema e cada um têm sua magia, mas, nos últimos dois anos, tive a oportunidade de cobrir o TFF e notei que a maioria dos filmes nacionais, ou seja norte-americanos, selecionados pela equipe do festival, tem um roteiro que mostra de forma mais realista a vida da classe média baixa no país, contam estórias que acontecem, diariamente, na rotina do povo, representado por brancos, negros, asiáticos, mexicanos, heteros, gays, lésbicas, imigrantes, nativos, que batalham contra os desafios de uma vida sem privilégios.

De certa forma, os filmes que estreiam no Tribeca desglamourizam Hollywood e o Sonho Americano. Muitos que assisti por lá mudaram a minha perspectiva do próprio país que resido atualmente. São projetos que nos educam, além de entreter. Filmes que têm o propósito de tocar a nossa alma e nos inspirar, nos alertar, e nos ajudam a ampliar nossos horizontes. Acho que o fato do festival ter nascido para curar a cidade mais importante do país de suas feridas faz com que ele seja mais sensível com o seu povo que não sofreu só as consequências daquele trauma, mas vive uma realidade violenta e triste, que passa batida pelos governantes que estão mais preocupados em proteger seus amigos milionários dos impostos e atacar trabalhadores que pagam as taxas, mas não têm um passaporte americano.

Seguindo a linha de filmes fascinantes que falam a verdade sobre a “América de Trump”, “Gully”, que marcou a estreia de Nabil Elderkin como diretor de longa-metragem, mostra a cidade de Los Angeles como ela de fato é, e não como, geralmente, o mundo a enxerga, graças à imagem de como LA é vendida pela indústria do entretenimento.

“Gully” se passa em uma Los Angeles futurista e distópica, acompanha o dia-a-dia de três melhores amigos – Calvin (Jacob Latimore), Nicky (Charlie Plummer) e Jesse (Kelvin Harrison Jr.) – que lutam para sobreviver no ambiente sombrio e alienígena, numa região classe média baixa da cidade. Traumatizados por seus relacionamentos familiares conturbados e dificuldades socioeconômicas, eles buscam a fuga nos videogames, nas drogas e nas festas loucas que frequentam. Mas suas válvulas de escape proporcionam apenas um alívio temporário de suas dores. Depois de uma descoberta surpreendente e inesperada, os rapazes perdem ainda mais o contato com a realidade e começam a cometer perigosos atos de violência buscando uma vingança que os levam a um futuro incerto.

A edição é uma das estrelas do filme e contribui diretamente para que seu espetacular roteiro seja apresentado de uma forma ainda mais dinâmica e impactante. Os três atores estão perfeitos na pele de seus personagens e a química entre eles é tão forte que nos apegamos as suas trajetórias e acreditamos em sua amizade, desde o primeiro momento que aparecem juntos na telona. A partir dali, nós vamos fazer parte da gangue, para o bem e para o mal.

Nabil Elderkin é um aclamado diretor de videoclipes, e usa cinematografia estilizada e elementos surrealistas para criar sua visão de uma comunidade no caos, o que funciona perfeitamente no filme.

O elenco de “Gully” conta ainda com a participação de Terrence Howard, Amber Heard, Robin Givens e John Corbett e Travis Scott, é um daqueles raros filmes em que cada cena por si só conta uma estória. É intenso, não fala meia verdades, apresenta o lado bom e diabólico que um ser humano que sofreu violência doméstica, abuso sexual e sofre de uma doença mental, sem tratamento, pode ter. As atrocidades não têm limite, e são um tapa no estômago do público, mas nos toca profundamente. Nos faz pensar.

Tem quase três semanas que assisti o filme, mas ainda estou convivendo com ele, que me fez prestar atenção de fato nas pessoas e na realidade que vejo quando dirijo pelas ruas das regiões menos privilegiadas de LA. “Gully” me tirou a venda invisível que eu tinha nos meus olhos esses anos todos e me fez perceber os Calvins, Nickys e Jesses da vida real, que muitas vezes são como são por sofrerem as consequências desastrosas do ambiente nocivo em que cresceram.

E, por fim, numa era em que o cinema virou um dos veículos para se expressar opinião sobre os assuntos da moda, o que é excelente, mas, geralmente, é feito de forma clichê, “Gully” é uma obra de arte, que ressalta de forma brilhante, emocionante, chocante e eletrizante a vida de quem mora na parte da Cidade dos Anjos que é longe do oceano Pacífico, a milhas de distância das mansões de Beverly Hills e da placa de Hollywood. O lugar onde a vida é como ela é, sem holofotes, sem o brilho das joias das celebridades e desfiles por um tapete vermelho.

Mais que um filme, “Gully” é uma lição de vida, assim como foi o trágico episódio de 11 de Setembro, que originou o festival onde ele estreou.

 

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