Documentário sobre jovens na política conquista o Sundance Film Festival

Por: Gabriela Egito, enviada especial ao Sundance

Sem sombra de dúvida, o filme mais fascinante que assisti nesta edição do festival foi “Boys State”, que arrancou aplausos apaixonados da plateia e abocanhou o Grande Prêmio do Júri dos EUA de Documentário no Sundance. Não é à toa que os direitos mundiais do longa foram disputados por Netflix e Hulu, sendo adquiridos pela Apple e pela A24 por uma soma recorde de 12 milhões de dólares, a maior venda de um documentário registrada em competições do gênero.

O filme acompanha um programa de mesmo nome realizado anualmente há décadas pela Legião Americana, uma organização de veteranos de guerra dos EUA. Por uma semana, eles hospedam 1,1 mil rapazes no campus da universidade de Austin para aprender conceitos de política na prática. É tão emblemático que nomes do quilate de Bill Clinton já passaram por lá quando jovens. Há também uma versão só para garotas do mesmo experimento educacional, que não foi coberta pelos realizadores.

O fato é que, durante essa semana, o grupo de rapazes na faixa dos 17 anos é divido em dois partidos, que realizam pré-eleições internas para escolher seus candidatos. E o programa culmina com as eleições, de fato, para cargos como governador e senador, dentre outros. O resultado é a criação de um Estado democrático de garotos, que dá nome ao título do filme.

 

O que torna tudo muito fascinante é que os integrantes de cada partido são escolhidos por sorteio e não por afinidades ideológicas. Assim, dentro de um mesmo partido há todo tipo de opiniões sobre temas polêmicos, embora a tendência majoritária seja conservadora porque o programa ocorre no Texas.

A primeira tarefa dos dois times, portanto, é chegar a um consenso sobre a plataforma política que define seu partido. Ao mesmo tempo, cada integrante tem que conseguir um determinado número de assinaturas dentro de seu grupo para poder concorrer à pré-candidatura ao cargo de sua preferência.

Os diretores Amanda McBaine e Jesse Moss

 

O casal de diretores Amanda McBaine e Jesse Moss escolheu quatro rapazes de origens e visões políticas diversas para acompanhar desde antes do início do programa. Ben Feinstein é um rapaz portador de deficiência física com aspirações republicanas conservadoras, que estuda discursos políticos em casa e coleciona bonecos do ex-presidente Ronald Reagan, seu ídolo. A meta dele é vencer as eleições a qualquer custo.

 

 

René Otero, um negro de Chicago diz que “nunca viu tanto branco junto” ao comentar sobre sua primeira impressão. Com o dom da oratória, ele é eleito uma espécie de secretário do partido e, mais tarde, sofrerá uma tentativa de impeachment por parte de seus correligionários com direito a meme racista contra ele nas redes sociais.

Steven Garza é um rapaz latino, rechonchudo, filho de imigrante sem documentos. Ele chega ao programa com uma integridade a toda prova. Otimista, acredita que é possível fazer política de forma limpa e honesta. É o único declaradamente progressista e se apresenta como fã do senador socialista democrata Bernie Sanders.

Lidando com um público majoritariamente branco e conservador, Steven prefere apelar para o bom senso de seus eleitores ao invés de dizer algo que agrade somente para ganhar votos. Em determinado momento, mesmo pressionado, ele propõe a uma plateia, em sua maioria a favor do porte de armas, que sejam implementados exames psicológicos antes de dar armas a qualquer um.

Seu principal rival, Robert Macdougall, é o oposto. Rapaz branco, de família rica, atleta com cara de galã, adora os holofotes que a política pode proporcionar. Ele não hesita em se apresentar como ferrenhamente pró-vida a seu eleitorado, quando nos bastidores confessou à equipe de filmagem que é, na verdade, a favor de que as mulheres tenham liberdade de escolha sobre seus corpos.

Para espectadores de viés progressista, Steven é o candidato óbvio de preferência e torcemos todo o tempo para que ele consiga realizar seu sonho de chegar a governador (não vou contar o final). Aliás, qualquer pessoa com integridade é capaz de reconhecer o valor de ser honesto e ouvir seu eleitorado na busca por soluções que sejam boas para a coletividade. Isso é inclusive reconhecido até por garotos do partido adversário ou com visões muito mais conservadoras que a dele no documentário.

Enfim, só posso dizer que, na trajetória até o ponto máximo das eleições, as altas aspirações enfrentam truques sujos e baixos, pedidos de impeachment e debates acalorados. É uma montanha russa de emoções que espelha verdadeiramente um microcosmo da política. O resultado na tela provoca também o debate necessário sobre o estado da democracia americana, já que supostamente essa juventude é composta pelos políticos e eleitores de amanhã. Filme imperdível ainda sem data de estreia, mas já marque no seu caderninho.

 

Gabriela Egito é jornalista há duas décadas, uma delas vivendo em Los Angeles. No Brasil, trabalhou como repórter e editora em diversos jornais e revistas de circulação nacional sediados em São Paulo, Espírito Santo e Alagoas. Nos EUA, tem atuado também como cineasta premiada em festivais internacionais.
@luanatmattos

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