Filmes feitos por mulheres ganham destaque no Sundance Film Festival

Nada melhor para celebrar o Dia Internacional da Mulher do que uma matéria especial sobre as cineastas que brilharam com seus projetos no Sundance Film Festival este ano. Mulheres inspiradoras na vida e na arte. Feliz dia pra todas nós!

Por: Gabriela Egito, enviada especial ao Sundance

A indústria americana de cinema está longe de ser igualitária quando se trata de contratar e/ou financiar quem escreve e dirige os filmes. Pra se ter uma ideia, dos 100 filmes de maior bilheteria dos EUA no ano passado, somente 12 foram dirigidos por mulheres; os 88 restantes foram entregues a mãos masculinas. Por isso, é importantíssimo quando um festival do porte de Sundance – uma das maiores vitrines de talentos do mundo – faz questão de que 44% da sua programação sejam de filmes feitos por diretoras.

E não é só uma questão de “preencher cotas”. Praticamente metade (48%) dos filmes premiados na competição tinham assinatura feminina. Além de muito bem realizados, esses filmes trazem uma visão feminina de mundo, da experiência do que é ser mulher – ao contrário de filmes concebidos por homens sobre como eles vêem o sexo oposto, por exemplo. Tem diferença? Tem. E muita!

Prova disso é o drama “Never Rarely Sometimes Always”, escrito e dirigido por Eliza Hittman (“Os 13 Porquês”), que merecidamente ganhou o Prêmio do Júri Especial Dramático dos EUA: Neo-Realismo em Sundance. O lançamento está programado para março nos EUA pela Focus Features.

O filme é um retrato íntimo de duas adolescentes (Sidney Flanigan e Talia Ryder) na zona rural Pensilvânia. Uma delas fica grávida sem querer do ex-crush abusivo. Ela e a prima juntam dinheiro e embarcam escondido da família em uma árdua jornada através das fronteiras estaduais para a cidade de Nova York, onde a garota de 17 anos poderá realizar um aborto de forma legalizada.

Atriz Sidney Flanigan e diretora Eliza Hittman na estreia do filme ‘Never Rarely Sometimes Always.’ © Sundance Institute | Foto Lauren Wester

A cena mais emocionante é justamente a que dá título ao filme. A menina tem que responder às perguntas extremamente íntimas sobre sua vida sexual para a assistente social que cuida do seu caso, escolhendo uma das alternativas: nunca, raramente, às vezes ou sempre. É tudo muito delicado e sutil. A menina não precisa dizer muito para entendermos que a história dela é parecida com a de milhares de adolescentes pelo mundo.

 

 

Outros dois filmes trazem a temática do assédio para as telas. O primeiro é “The Assistant”, estrelado pela talentosa atriz Julia Garner, que faz a aprendiz de meliante na série da Netflix “Ozark”. O filme escrito e dirigido por Kitty Green (“Quem é JonBenet”, também da Netflix) foi lançado em janeiro nos EUA, mas ainda não tem data de estreia no Brasil.

Kitty Green e Júlia Gardner no Sundance Film Festival

O drama, que é filmado de forma bem naturalista, mostra um dia na vida da assistente de um poderoso produtor em Nova York, com toda a rotina tediosa de atender telefones, servir água, limpar a sala de reuniões, tirar cópias de documentos, resolver pepinos, aguentar os gritos do chefe e depois ainda pedir desculpas a ele por email por tê-lo “desapontado”.

Há quem jure que se trata de uma alusão ao outrora poderoso e atualmente infame Harvey Weinstein, acusado de usar sua influência e truculência para assediar e abusar sexualmente de diversas atrizes, num escândalo que abalou as estruturas hierárquicas de Hollywood.

O fato é que, em uma decisão super acertada da diretora e roteirista, nunca vemos o tal chefe em cena, só ouvimos seus berros do outro lado da linha. Isso por que na verdade a trama não é sobre ele. Chega de filmes masculinos glamurizando e passando pano pra narcisistas incorrigíveis, né?

O filme é sobre a conivência dos que trabalham com o assediador, sobre a máquina corporativa que permite, protege e até premia esse tipo de conduta dentro de uma empresa, intimidando ferozmente quem tenta denunciar formalmente o que todos vêem e sabem que está acontecendo nos bastidores.

Kitty Green escreve uma das cenas mais memoráveis do cinema norte americano quando sua heroína resolve ir ao RH reclamar que seu chefe contratou uma outra assistente, uma menina de uma cidadezinha de interior com aparência de modelo, sem experiência alguma, a qual ele hospedou em um hotel de luxo em plena Nova York às custas da empresa. É impactante e explica muita coisa sem precisar fazer discurso.

 

 

Outro filme que trata de assédio sexual é “Promising Young Woman” (que poderia ser traduzido como “Jovem Promissora”), escrito e dirigido por Emerald Fennell, atriz de “The Crown” que também é escritora. O mínimo que dá pra dizer é que é um thriller polêmico e arrojado. Dá o gostinho amargo da experiência feminina em um mundo machista, onde mulher que usa saia curta e fica bêbada na balada “tá pedindo”.

Carey Mulligan, Alison Brie, Bo Burnham, Ben Browning, Emerald Fennell e Tom Ackerley no Sundance Film Festival

A atriz Carey Mulligan (“As Sufragistas” e “Não Me Abandone Jamais”) é uma ex-estudante de medicina obcecada por vingança e reparação devido a um trauma do passado. Toda semana, ela frequenta bares e finge estar bêbada para dar uma lição inesquecível nos machos que se aproximam com terceiras intenções ao ver o seu estado alcoólico.

Descrito dessa forma, parece super dramático, mas o filme tem também uma boa carga de humor negro e inesperada comédia romântica, ao som da música “Toxic” de Britney Spears, como parte da trilha sonora.

Posso dizer que eu me senti representada ao testemunhar na tela um mundo onde homem pode tudo sem sofrer maiores consequências e a culpa sempre recai sobre a mulher, o que obviamente gera ressentimento na protagonista. Mas confesso que preferia um final diferente. Não me entenda mal, o final faz todo sentido, mas eu esperava algo menos… sombrio. Está programado para estrear em abril nos EUA.

 

 

A jornalista e escritora Gloria Steinem, que virou ícone do feminismo nos anos 60, já foi personagem de muitos filmes e séries de TV, mas desta vez ocupa o centro das atenções em longa baseado na sua autobiografia “Minha Vida na Estrada”. “The Glorias” foi adaptado para a telona e é dirigido por Julie Taymor (“Frida”, estrelado por Salma Hayek).

Gloria Steinem no Sundance Film Festival

O filme mostra a influência que a infância itinerante teve na vida da feminista e como Gloria se tornou jornalista, escritora e, mais tarde, defensora dos direitos femininos, com alcance mundial. O título diz respeito às diversas fases da vida da autora. São três Glorias (criança, jovem, adulta) que magicamente se reencontram e trocam experiências. A Gloria adulta é vivida por Julianne Moore (“Para Sempre Alice”). Ainda sem data de lançamento nos EUA.

Agora mulher também sabe fazer rir, viu? Que o diga “The 40-Year-Old Version”, uma comédia escrita, dirigida e estrelada por Radha Blank, que levou o prêmio de melhor direção em Sundance. O filme conta a história de uma dramaturga afrodescendente de Nova York que decide se reinventar aos 40 anos, tentando deslanchar uma carreira como rapper. Além de um roteiro bem amarrado, o carisma despachado da autora ajuda muito a arrancar boas gargalhadas da plateia. Em breve será possível conferir na Netflix.

A diretora Radha Blank no Sundance Film Festival


Quer saber por que o Sundance Film Festival é imperdível? Confira:

https://www.hollywoodeaqui.com/sundance-film-festival-evento-e-um-privilegio-para-quem-ama-a-setima-arte/

 

https://www.hollywoodeaqui.com/viggo-mortensen-e-michael-keaton-estrelam-dramas-sensiveis-no-sundance-film-festival/

 

Gabriela Egito é jornalista há duas décadas, uma delas vivendo em Los Angeles. No Brasil, trabalhou como repórter e editora em diversos jornais e revistas de circulação nacional sediados em São Paulo, Espírito Santo e Alagoas. Nos EUA, tem atuado também como cineasta premiada em festivais internacionais.
@luanatmattos

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